O Morcego…

0
126

–“Amor, amor, amooooorrr”, vem cá !!!”- ela grita desesperadamente..

– O que foi, outra barata? – respondi em tom irônico.

– Não! Tem um morcego aqui, dentro de casa. Aqui nos fundos, perto da tevê, em cima do sofá.

(Silêncio profundo)

– Amor!!! Vem aqui!!

– Falou comigo querida?

– Vai lá pai, você que é o machão da casa, vai lá! Resolve agora, quero ver! – disse meu filho mais velho, Matheus, tirando onda.

– Ok! Onde ele está? – perguntei.

– No sofá, ali ó! Se mexendo ó! Faz alguma coisa!

Calmamente caminhei até os fundos e vi. Parecia um rato com asas, e o pior, se mexendo. Credo! Aí já é demais. Barata tudo bem, dou conta, mas morcego é um caso para chamar o Corpo de Bombeiros!

– Vai lá e tira ele! – Ela de novo, agora com tom de braba, exigindo uma atitude.

– Calma, preciso pensar. Primeiro vamos nos separar.

– Como assim pai, nos separar?

– Nós aqui e o morcego lá. Vamos fechar esta parte da casa e raciocinar.

– Aff! (ela de novo impaciente)

– Pai, morcegos transmitem raiva – disse o pequeno Henry. Um amigo meu me disse na escola.

– Então é mais um motivo para fecharmos a casa – alertei.

– Tá, e o morcego? Agora vai morar conosco. Ele nos fundos e nós na outra parte da casa?

– Calma meu bem. Eu tenho um plano. Tudo vai dar certo. Confie em mim. Não é a toa que temos quatro cachorros e uma gata. A natureza vai cuidar disso tranquilamente.

– Pai, só não manda a Penélope lá. Pois a basset está obesa e pode não conseguir subir no sofá (risos de todos. Penélope é a nossa cachorra mais jovem e está um pouco acima do peso)

– Filho, fique tranquilo, vou mandar a Kate, nossa scoth terrier. Ela é de caça, apesar do pequeno porte. Será fantástico. Ela sentirá o cheiro do morcego e correrá em sua direção e então, ela voará para rua e tudo se resolverá, sem agredir a natureza.

Fui até o canil e peguei a scoth. Ela, sem entender nada, abanava o rabo feliz da vida pois entraria em casa em dia que não tomou banho. Larguei ela no chão, uns 5 metros do sofá.

Fechei a porta de vidro e ficamos olhando… Nada aconteceu. Kate ficou na porta também nos olhando pelo vidro.

– Já sei! – exclamei – Vou mostrar para ela uma bolacha. Daí arremesso a bolacha em direção ao sofá e ela vai lá, vê o morcego e ataca, então ele voará. Simples demais. Como não pensei antes…

Peguei a bolacha e arremessei. A cachorrinha correu em direção ao sofá. Um silêncio total, seguido de grande expectativa. Olhei para Elis e para as crianças e falei com total domínio da situação:

– Viram? Está tudo resolvido. Logo logo o morcego passará voando ou estará na boca da cachorra…

– Pai, acho que não. A Kate está na porta de novo, abanando o rabo e comendo a bolacha. Provavelemente quer outra. Quantas você vai dar ao todo? É que eu apostei com o Matheus que ela vai comer cinco bolachas e não vai pegar o morcego…

– Vou pegar a gata. Para mim chega! Gatos são predadores natos.”

Coloquei a cachorra de volta no canil e peguei a gata, de nome Monalisa.

– Pai, você também vai jogar bolacha para a Mona? É que o Matheus disse que ela não vai correr atrás da bolacha que nem a Kate. Não pode ser uma salsicha?

– Meninos fiquem quietos. A coisa é séria. Vou colocar a gata no caminho dele e restabelecer a paz nesta casa. Agora é pra valer!

– Quer que eu chame os bombeiros? – ela perguntou em tom irônico lixando as unhas…

– Ahhh era o que eu estava esperando. Um deboche! Não pense que você vai me atingir com suas piadinhas. O morcego está com os minutos contados. A gata vai lá e ele voará desesperadamente para rua…

– Pai, vai ser bolacha ou salsicha? O Matheus está apostando comigo que a Mona não vai nem se for salsicha…

– Meninos silêncio. Agora é pra valer. Gatos são animais inteligentes, espertos, predadores, ágeis. Monalisa vai resolver…

Joguei a gata nos fundos, perto do sofá. Um silêncio total tomou conta do ambiente. Ficamos na expectativa. Elis então falou novamente em tom irônico:

– Já jogou a bolachinha no sofá? Quem sabe numa dessas você acerta o morcego e resolve um problema criando outro. Não teremos bolachas para o café de amanhã..

Fingi não ter escutado. Também não olhei para os meninos. A gata voltou e nada do morcego…

– E aí pai? E agora? Será que ele ainda está lá? Não estou vendo o morcego.

– Rá ! Eu disse que resolveria. Se não estão vendo é porque ele fugiu. Partiu.

– Que bom querido. Então vai lá, apaga as luzes e fecha a porta, já que não tem mais morcego…

– Calma gente, não sabemos se era mais de um ou não. Morcegos transitem raiva. Hoje os fundos da casa ficarão abertos. Amanhã a “Tata” vem e confere se preciso novamente intervir.

– Ahh pai… tá com medo ?”

– Medo de que? De um morceguinho cego? Já resolvi! Vamos esquecer tudo…

E naquela noite todos dormiram com janelas e portas fechadas em seus quartos…