11º Acampamento da Poesia

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Ele acontece sempre na lua cheia de outubro. Neste ano, dias 26, 27 e 28/10. E sempre nas dependências do Balneário Parque das Fontes. Começa na sexta-feira e termina no domingo. Termina o encontro dos poetas, porque a poesia não termina nunca. Ela sempre está “rinconada em algum canto da alma dos poetas e volátil nos versos ali nascidos. A poesia é irmã dos sustos e mora na beira de precipícios. Mas como é, também, irmã do condor, voa alto e habita nas nuvens. Da beira dos precipícios, namora o inferno; do alto das nuvens, tem paixões pelo céu. Quem há de entender a poesia”?

Esse importante evento cultural, criado por mim em 2002, reúne, há dez anos, algumas dezenas de poetas de diversas cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados. Entre outros objetivos, um é o de elaborar um livro destinado às escolas, para o incentivo à leitura e para despertar o gosto pela poesia. Hoje já é possível averiguar os resultados junto às escolas municipais e estaduais do município pela surpreendente produção literária concretizada em publicações e atividades lítero-lúdicas junto às suas comunidades.

O Acampamento da Poesia é uma promoção da Prefeitura Municipal de Entre-Ijuís, e a realização é da Academia Santo-angelense de Letras com apoio do Balneário Parque das Fontes. De tão aprazível, é de se esperar que esse espaço, em seus dias de primavera, liberte os deuses do poema preso no peito dos vates. Como esse, talvez:

A FLOR E A NÁUSEA

Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me’?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova. As coisas.
Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia.
Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.