A escola e a grande enrascada em que se meteu

0
112

Não estou mais em sala de aula como professor regular embora tenha lecionado quarenta e três anos. Experimentei todas as etapas do ensino, da antiga 6ª série ao Curso de Mestrado. Em todos esses anos de sala de aula, uma ou duas vezes deram-se conflitos professor-aluno ou aluno-professor. Conflitos dos quais, solucionados, acabavam sendo alvo de risos ou chacotas hilariantes entre os conflitantes. Creio que vivi a era da paz na Escola, apesar de ter me separado da sala de aula em 2008.

Como professor que sou (que um professor que se preza nunca é ex-professor), fico consternado com notícias sobre conflitos em sala de aula, com conteúdos de artigos sobre a Escola de hoje, com palestras, conferências, fóruns, simpósios, seminários, congressos, livros, dissertações e teses, todos, invariavelmente, tratando dos péssimos resultados alcançados junto aos alunos, quer na aprendizagem de conteúdos curriculares, quer na condução do aluno para a vida adulta, ou seja, em sociedade.

Esse é apenas um lado da questão, pois o outro lado trata da impressionante falta de segurança com que o professor se depara em sala de aula com o acometimento da violência e a crescente incapacidade do professor impor limites aos alunos, descambando para a nefasta presença de drogas, armas e até agressões ao professor. Dá a impressão de que a escola não pode contrariar o aluno e nem sequer exigir um bom desempenho. Ou, então, dá a impressão de que o professor está de mãos amarradas, não podendo nem usá-las para ensinar e nem para se defender.

Diz-se, então, que a educação está em crise. Isso é uma definição genérica que se dá para uma situação que se faz presente no Brasil, mas que dói muito mais quando se sabe este quadro dentro das instituições que nos estão perto, ali no colégio onde lecionamos, ali onde nossos filhos também estão matriculados, ali onde nossos alunos não estão crescendo como deviam dentro de uma Escola regular.

Dias passados, lendo um artigo do professor Roberto Leal Lobo, ex-reitor da USP, creio que nas páginas da Folha de São Paulo, ele resumia algumas considerações sobre o assunto, tiradas de uma publicação francesa dos anos 80, que trata sobre o mesmo tema. A primeira ideia acentua uma tendência mundial das sociedades, a de que estas “adotam o prazer como o ideal, em todas as direções… Para tais sociedades, o objetivo da civilização é se divertir sem limites”. A Escola teria passado esse ideal para dentro dos currículos, originando a falta de disciplina e o fraco desempenho na aprendizagem. É possível? Acho que é. O fim da dureza do estudo, a falta de empenho para o trabalho sério e profundo na busca do entendimento das matérias e do conhecimento, a falta de disciplina individual e esforço pessoal, o nivelamento por baixo “em troca da igualdade social”, muitas atividades curriculares trocadas por “práticas extracurriculares fáceis e sem conteúdo, que servem para matar o tempo do jovem. A escola desistiu de conduzir os jovens à vida adulta”.

Diz a publicação francesa que “É uma enganação afirmar que a inaptidão para expressar-se, que a ignorância crassa em história, em geografia, em literatura e a incapacidade em seguir um raciocínio elementar” sejam um preço que tenhamos de pagar para que todos se sintam à vontade na escola…”. E acrescenta: – “A ambição da igualdade a todo preço desencoraja o esforço de aprender, que é tipicamente individual”.

Ora, isso remete a uma premissa complexa, a de que somos todos iguais. Somos, sim. Mas será que não se pode ser diferente nem no esforço individual para aprender mais? Será que não se pode ser diferente por focar menos no sonho e mais na realidade do futuro? Talvez essas ideias expliquem o bullying que sofrem os chamados popularmente de CDFs, isto é, os diferenciados pela dedicação ao estudo a ponto de saírem da “convivência normal” dentro da escola.

Os franceses criticam duramente, ainda, “pedagogos, professores, administradores, sindicatos de professores e a nova geração de pais…” dizendo que estes “apontam soluções simplistas para todos os males que afligem o ensino básico, como o aumento dos orçamentos ou ações tecnológicas nas escolas”. Criticam, também, “ideologias que banalizam o ensino, como se o papel principal da escola não fosse tirar o aluno da ignorância”.

O ex-reitor da USP é categórico quando concorda com a publicação francesa e defende “a destruição de alguns paradigmas tão em moda no Brasil”, tais como: “– a qualidade inquestionável e universal do trabalho em grupo; a ‘postura crítica’ sobreposta à absorção de conhecimento; a frouxidão e a permissividade em vez de disciplina e cobrança; a prioridade das atividades ‘sociais’ em vez do estudo persistente; a valorização dos pesquisadores de banalidades; a ênfase nas metodologias em vez dos conteúdos”.

Por fim ele encerra o texto com uma dolorosa pergunta, ainda sem resposta: – “quantas gerações de alunos serão prejudicadas até o estudo persistente e o conteúdo voltarem a ser valorizados”?

E eu acrescento outra pergunta: quantas gerações de alunos serão necessárias para que volte o respeito pelo estudo, pela escola e, consequentemente, pelo professor?