A menina que odiava o Natal

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Uma garimpagem na memória buscando as festas de final de ano, Natal e Ano-Novo, levou-me a uma distante menina, vizinha de nossa casa, ainda na minha infância. Ah, a infância, como ficou longe!

Não lembro o nome da vizinha, mas era minha colega no “terceiro livro”, numa escola de freiras franciscanas. Em compensação, tenho-a na lembrança, seu rosto, sua altura, a cor de seus vestidos, os tamanquinhos nos pés para a escola, os pés descalços para o resto do dia, sua voz fora de tom e sua vontade de brincar só com os meninos. Nunca entendia o porquê sua mãe vinha buscá-la, com uma vara de marmelo, tirando a coitada do meio de uma partida de futebol com bola de meia, em pleno império dos meninos, levando-a abaixo de varadas nas pernas, já que ela só usava vestido, mesmo para o futebol com os piás. Não, eu nunca entenderia nada dela, naqueles tempos de inocência e molecagem barata. Vida dura, minha menina!

Sei, também, que gostava dela porque sempre me defendia toda vez que eu era acusado de ter cometido um crime em sala de aula, como quebrar a lousa do colega, atirar o lápis de outro lá na frente da professora, rasgar o caderno de uma loirinha cheia de nó pelas costas que havia por lá, e até de desprevenidos puns absurdos no silêncio momentâneo. Para ela, nunca era eu o culpado, mesmo que fosse. Sim, havia uma caneca de leite recém tirado da vaca, o apojo ainda com a espuma quentinha, que ela trazia para o meu café. E tantas outras coisas que estão atoladas na memória, coisas agradáveis me parecem assim à distância do tempo enorme de mais de sessenta anos. Acho que ela me amava e eu não sabia, e eu não entendia, como nunca entendi uma de suas dores, a dor do Natal e do Ano-Novo. Fosse hoje, talvez precisasse de um psicólogo. Mas lá no passado, psicólogo era nome feio, e depressão era demência.

Ela tinha nove anos, ou dez. Eu, oito ou nove. Não poderia compreender a reação comportamental dela nos dias que antecediam o Natal e o Ano-Novo, nem se aquilo vinha de antes. Só me lembro que, de repente, ela entrou lá em casa, na tarde do dia 24 de dezembro, e deu de cara com o enorme pinheiro coberto de bolas brilhantes, velas coloridas, estrelas cintilantes, um presépio colocado sobre o cinza do musgo de árvores, um espelho imitando um lago, tudo pronto para a vinda noturna do Papai Noel. Meus irmãos e eu, todos já banhados, mais do que alegres, logo queríamos mostrar para ela detalhes do presépio, quem era quem naquelas estatuetas, nos caminhos feitos de areia sobre o musgo, ovelhas e ovelhinhas, burro, vaca, pastores, gruta e a manjedoura com o Jesus Cristinho.

Mas a menina sofria a dor do Natal. Atirou-se ao chão e começou a chorar forte, duro, de dentro, tanto que chamou a atenção de nossa mãe que veio saber o que estava acontecendo.

– Nada, mãe. E tentou levantá-la perguntando o que tinha, onde doía. Então a menina, no meio de soluços doloridos, esquivou-se das mãos de nossa mãe e gritava coisas que me batem na memória até hoje:

– Horrível. Feio. Tudo feio, feio, feio, feio – e desandou porta afora aos soluços.

Foi neste dia que soubemos que a menina odiava o Natal e todos seus mitos e festejos, o Ano-Novo e o “Feliz ano-novo” que dávamos de casa em casa ganhando doces, presentinhos e até moedas. Que não saía de casa e ficava agressiva, que odiava os presentes do Papai Noel, que não ia nem na missa e nem queria rezar nesses dias. Viam-na triste pelos cantos, quieta, doente. Mal comia, mal dormia, mal falava. Assim desde os cinco anos, disseram.

Hoje eu leio sobre uma certa “depressão de fim de ano”, sobre a ansiedade e angústia que se abate sobre muitas pessoas nestes dias. Gente que fica triste no Natal e Ano-Novo. Que não consegue entrar no “espírito natalino”. E para todos esses sentimentos antagônicos com os sentimentos da maioria das pessoas há explicação. Freud explica, eu diria. E há remédios e há cura.

Eu sei se Freud chegou a tempo para a menina que sofria a dor do Natal. Ou se o tempo a curou. Lembro apenas que em mais alguns Natais ela sumiu. E nem atinávamos que ela sofria sozinha. Num certo janeiro, minha família mudou-se e eu a perdi de vista. E, agora, toda vez que ouço dizer que há alguém que não gosta das festas do final de dezembro e que se deprime, lembro dessa menina para quem, na época, não havia cura além da vara de marmelo da mãe que a obrigava ir à missa no dia do Natal.