AINDA O OURO NAS MISSÕES

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O ouro das Missões, ah, os tesouros jesuíticos! Eu acreditava que essa história de sair à noite pelas matas, banhados, campos, cascatas, fontes, umbus e timbaúvas seculares, lagoas e cemitérios antigos era coisa do passado. Que nada! Hoje, os malucos que ainda acreditam que os jesuítas deixaram baús atopetados de ouro usam equipamentos que, dizem, anuncia que ali, um pouco abaixo de seus pés, está o metal precioso. Desconheço esse tipo de equipamento, mas acredito na tecnologia que pode, sim, identificar metais sob metros de terra. O que não acredito é que possa identificar tesouros jesuíticos por razões que me parecem óbvias: os jesuítas e seus índios missioneiros eram mais pobres que ratos de sacristia.

Pode haver quem me conteste. Mas não se enganem com o brilho dos altares missioneiros ou com as lantejoulas douradas e prateadas das vestimentas dos padres nas solenidades religiosas. Nem com os cálices, patenas, hostiários, campainhas, turíbulos e sinos. Muito menos com a suntuosidade dos templos e das imagens missioneiras. Esse aparato todo não era com fins de mostrar uma riqueza que não tinham. O objetivo era outro, claramente voltado para os fins religiosos traçados pelos jesuítas na conversão e crença dos índios. Havia, sim, uma diferença abissal entre a suntuosidade da igreja e a casa do índio.

No entanto, o assunto tesouro jesuítico não está morto como eu pensava. Acreditava que, com Carlos Galvão Krebs, autor de um precioso libreto intitulado Tesouros e Subterrâneos Jesuíticos (Livraria do Globo – 1949) tudo estava encerrado. Enganei-me. Recentemente, um amigo, a quem tenho o maior carinho e respeito, assuntou o caso dos “enterros” missioneiros e perguntou minha opinião. Fui claro, não acredito e não moveria um dedo para sair à procura dos rastros do ouro jesuítico. Então soube, também, que há muita gente ainda procurando os ditos tesouros. E não tão longe que nossos olhos não alcancem tais locais misteriosos.

Agora, relendo textos antigos e raros sobre as Missões, deparo-me com essas informações vindas de Thomaz da Costa Corrêa Rebello e Silva, em “Memória Sobre a Província de Missões”, creio que escrita em 1808, mas publicada em 1840 na Revista Trimestral de História e Geografia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O autor, que foi Governador das Missões no ano de 1808, revela o que se pensava sobre o ouro dos jesuítas naquela época. E como não se pode desprezar totalmente a tradição oral, fico, cá com o meus botões, meditando mais uma vez no assunto. Eis o texto adaptado para a nomenclatura atual:

– Os Jesuítas, seus diretores espirituais e temporais, não só os continham com sistemas em que envolviam a Religião, como cuidavam do seu aumento, fomentando por todos os modos a agricultura, comércio e a povoação dos campos. Tratavam com igual cuidado o aumento da população apoiando os casamentos, construindo casas não ordinárias para sua habitação, tendo hospitais bem servidos e, finalmente, ao mesmo tempo que com o seu sistema nunca tinham ociosos os índios, estes viam os frutos dos seus trabalhos aplicados a si mesmos e à decência dos templos, artigo que ainda hoje mais prezam. Tiveram aqueles Padres a arte de persuadir os índios que eles eram santos, e com efeito, apesar de serem homens, como os Curas atuais, a sua conduta pública era bem diferente da que observamos hoje nestes. É certo que eles abusando da nímia credulidade dos índios, os persuadiam de muitas superstições, das quais ainda hoje restam monumentos. Tiravam, por exemplo, ouro, e conduzindo-o em procissão para a Igreja, faziam orações e bênçãos, e de noite tirando o ouro dos sacos o substituíam com verônicas de latão, e persuadiam aos índios que por efeito das orações e bênçãos Deus tinha feito o milagre de converter aquele metal em verônicas (estampa do rosto de Cristo) para objeto de sua veneração.

Com estas e outras tramas eram iludidos os índios e obrigados a sigilo, e tão sagradamente respeitado por eles que ainda hoje algum índio velho desse tempo não quer revelar certos artigos recomendados pelos Padres.

O ouro tirava-se, porém nenhum (índio) quer mostrar o lugar daquele serviço, ainda que, independente da confissão dos índios, me persuado não ser difícil achar um ou muitos pontos daquela Província nesta Fronteira do Rio Pardo que, com vantagem, possam entreter considerável número de mineiros”.

Está aí. Não teria este texto ajudado a montar o imaginário dos “enterros” e do ouro jesuítico ao longo dos anos? E teriam mesmo os jesuítas as tais minas de ouro que ainda não foram encontradas? Fique o meu caro leitor com esse intrigante tema da história das Missões. Eu durmo em paz.