Arte engajada

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 Nas décadas de 60 e 70, discutir arte com algumas pessoas era um perigo. Eu que o diga, que até perdi amigos durante monumentais encontros em bares, à noite, tudo regado a bebidas além de etílicas. Havia duas vertentes sobre o que era arte: uma, a tradicional, que defendia a arte como uma produção humana meramente estética, com sua função milenar de aliviar as sobrecargas do homem no seu dia a dia; outra, a vertente que defendia a arte como produção humana com funções puramente sociais, o que se chamava “arte engajada”. Lembro-me bem do que diziam os artistas engajados:

– Se a arte não é engajada, é arte alienada. Artista não engajado é um homem alienado. A arte não tem função estética: tem uma função social.
Essa era a questão. Em torno da arte engajada reuniam-se os pseudomarxistas santo-angelenses, de quem se podia ouvir:
– Eu sou marxista. Não sou comunista. Não me confunda!

Como não confundir, se, na verdade, aqueles jovens intelectuais não eram nem uma e nem outra coisa: eram parte da juventude brasileira que seguia a tendência geral de “posicionar-se” contra a ditadura militar iniciada em 1964. Mas posicionar-se amparados em ideais, e não em armas e ações. A única ação daqueles grupos era deslocar-se de casa, à tardinha, até uma pizzaria ou bar e, lá, no vaivém das caipirinhas de wodka, meter o pau nos colegas que não se “posicionavam”, que ainda liam os clássicos brasileiros, que ainda admiravam Mona Lisa, ouviam música clássica e que escreviam sonetos. Um dos gestos característicos que os pseudomarxistas faziam para os cegos do passado era colocar as mãos espalmadas em cada lado da cabeça, na altura dos olhos, como aquela peça de couro que colocam na cabeça dos cavalos para que não vejam os lados. E isso tanto queria dizer “vocês são uns burros”, como podia dizer “vocês são cegos”.

Não me esqueço de uma moça que tomava parte nas discussões espontâneas daqueles grupos. Era professora, não cito o colégio por questão de ética, e perdeu o cargo pela intransigência em defender suas ideias revolucionárias junto aos colegas e alunos. Não revolucionária no sentido de se colocar contra os militares: revolucionária contra o currículo da escola que ensinava que dois mais dois são quatro desde o tempo das reduções. Queria que dois mais dois pudessem, também, ser cinco, ou oito, ou três. Imaginem o que ela aprontava com os professores de história, português, literatura. “Ideias não são metais que se fundem”, já dizia alguém, algures.

Tão logo posta na rua, e após uns bons meses de penúria, mudou um pouco o discurso. Mas, para mal dos pecados, engravidou solteiríssima. E engravidar solteiríssima, naquela época, dava pane geral na família. Foi defenestrada e nunca mais soube dela.

Um dos ícones brasileiros da arte engajada, marxista de fato, assumido e sumido do Brasil por um bom tempo, era Ferreira Gullar, o poeta genial do “Poema Sujo”. Dizem as más línguas que ele é tão extraordinário poeta quanto extraordinária é sua feiúra. Concordo, mas quando a gente lê Ferreira Gullar, ele deixa de ser feio e passa para a ala dos homens acima da cara que têm.
Pois Ferreira Gullar, cujo nome verdadeiro é José Ribamar Ferreira, passados os anos de chumbo grosso e virada a página da história da Revolução de 64, mudou de ideia em relação à arte. Ele mesmo disse, em entrevista à Vaia, uma revista de Porto Alegre, que a coisa não é bem assim:

– Nós,marxistas, dizíamos que a arte tinha de ser engajada, e se a arte não era engajada, era alienada. Nós acreditávamos nisso. Isso era uma bobagem nossa. Na verdade, tanto a arte engajada pode ter uma função social, como a outra que não é engajada tem um valor e uma função”.

Esse mea culpa, mea máxima culpa não foi só de Ferreira Gullar. Estendeu-se pelo universo acadêmico em todo o mundo. Não era possível que toda a arte produzida pela humanidade em todos os tempos fosse desprezível, alienada e sem função alguma. Tanto a arte com função social como a arte meramente estética são imprescindíveis para o homem entender a si mesmo, aos outros e ao mundo que o rodeia. A arte é necessária.