ASSOMBRAÇÃO

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Sofre, cadela esfomeada! Aguenta a chacota do vizindário e o desprezo do universo ao teu desejo. Vê ao teu redor que ninguém se importa com os mistérios do prazer que imaginas no teu corpo. Cuspo nele o meu escarro!

Já disse. Mas ninguém saberá como tudo começou e durou tão pouco. O suficiente para, algures, a megera insinuar-me em sua trela pegajosa como seu comborço. Eu conto. Pérola era caixa em um supermercado. Foi ali que se tornou tão sádica? Numa tarde de sexta-feira, deu-me o troco a mais só para telefonar depois:
– O meu caixa não fechou. Você quer vir fechar o meu caixa?
No sábado fui lá e, no domingo, fomos a outro lugar. Miséria das misérias, aí eu vi que, nela, caixa nenhuma fechava.
– Faz um tempão que tou te cubando!

Antiquada em tudo, usava calcinha de espantar marido. Molenga de carnes é que era. Idade provecta para eu que sou animal sempre querendo carne de pinto. E o pior, me chamava de filhinho bem na hora imprópria. Mas homem que é homem, se vai à fonte, tem que beber. E bebi, ó água turva!

Não devia ter bebido. Daquele dia em diante, até meu jornaleiro sabia do caso. É, do caso que ela estava tendo comigo. No trabalho, os colegas diziam, rindo à socapa:

– Tu estás bem de dente, tchê! Comendo pelanca que nem guaipeca!

Uma semana para entender o rumoroso caso. Antenei, então, que Pérola estava naquelas falas. Furioso, fui ao supermercado, comprei uns trecos para disfarçar, e me embretei no caixa dela. Sabia que a demônia me cuidava desde que adentrei no super e que soletrava coisas abomináveis no ouvido do caixa vizinho.

– Tu andas falando por aí da nossa saída? – rumorejei entre dentes.

– Fofote, que mal hai? Não tava bão?

Pois saí dali com fogo nas guampas. Ela me paga. No mesmo dia comecei a narrar o idílio nas rodas de amigos, procurei as fofoqueiras da metrópole e relatei os is por is! Que ela tinha o cabelo ensebado. Que um dente podre exalava à linguiça, e que a chapa, na boca, era preta por baixo. Que queria tudo romântico: jantar com velas e fundo musical com Charles Asnavour e, ao decorrer do ato, Raul Seixas. Que exigiu um gole de champanha a cada peça de roupa que tirava no mais ridículo “strip-tease”. E tudo numa suíte presidencial, já que não havia real.

E fui citando detalhes do corpo, pereba por pereba, variz por variz, sem esquecer o peito piliforme e o saco velho de estopa que era o traseiro. Ah, sim, e a alta probabilidade de ser aidética. Disse e redisse dela até que virou lenda fantasma. Alguns tarados até faziam porque voltar ao supermercado, enchendo suas cabeças com alegorias sensuais, mas nunca de aproximar-se.

E ela virou nuvem, fumaça de aroeira braba. Até hoje, alguns não querem que Pérola toque nas suas compras. Será que ela lava as mãos antes de ir para o trabalho?