Assombros no Rio Moinho – 2

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 Não sei se lá volto! Tenho sestros com assombração desde o segundo quartel do século passado quando morávamos no meio do nada selvagem dos pinheirais do velho Ibiaçá, lá pelas bandas de Tapejara. Sim, não sei se volto lá, acampar à beira do rio Moinho, aquele ali perto do São João dos jesuítas, onde ainda gemem almas de missioneiros índios guaranis apenados.

Em 2008, no seu finalzinho, estivemos lá com minha melhor companhia, filhos, neto, cunhadagem e uma figura que descrevi como um “vaqueano da região, tiaraju da Rondinha, peão que a vida oportunizou transformar-se num Magayver das Missões, ou seja, um “Faiztudo”. No caso em pauta, um Faz-Tudo e mais um pouco, já que tinha experiência de levitações noturnas às margens do rio”. Ele atende pelo apodo de Cigarra.

Desta vez, foi na semana passada, estávamos os mesmos, com exceção da “cunhadagem”, mas isso não impediu que a matalotagem para a pescaria diminuísse. Ao contrário, aumentou em costela de Santo Cristo, paletas de borrego de Pedras Altas, salsichão do Matana, charque de ovelha e, além das barracas, uma bagagem extra de barriletes de cerveja, esta que sai dali feita chope ao puxar um botãozinho. Tralhas para pescar serviam apenas para justificativas sem substância em caso de necessidade. Éramos, então, em cinco, os filhos César, de Joinville, e Glauber, de Porto Alegre, o Wande, cunhado de Passo Fundo, o Cigarra “Faiztudo”, e eu. Digo os nomes e endereço para não me acoimarem de mentiroso no sucedido no oco da noite, no resvalar lento das águas do rio assombroso.

Foi no cruzamento da meia-noite do dia 9 passado, sexta-feira para sábado. O Cigarra, nas suas andanças atrás de pai-de-fogo, cernes duríssimos e pesados que ele trazia nas costas não permitindo ajuda de ninguém. Ele dizia, fazendo um pequeno descanso com o pé sobre um enorme cerne de guajuvira marmorizado pelo tempo dentro das águas:

– Não carece de ajuda, não. Quem tira moça feia para dançar no início do baile tem que aguentar até o fim.

Pois foi ele que convidou companhia para umas linhadas lá nos fundões do mato, num momento em que o rio se deita em poço fundo, calmo e quieto, imensamente sozinho, condomínio de jundiás e outros bichos. Fomos, eu, ele e mais o Wande, que o César e o Glauber são mais de curtir o acampamento ao som da cascata que chora ali ao lado.

Fomos, e não me arrependo. Uma experiência de esquisitos a mais, coisas inexplicáveis em ermos, somam nas vivências de um homem que gosta de escrever. Havia lua no céu, e seus desenhos na mata podem tanto encantar como trair: um vulto pode ser uma sombra, como pode ser um guará, pode ser uma alma penada.

Ao chegar, realmente era um poço triste, mas lindo nos reflexos do luar. Ali banharam-se nuas as adolescentes guaranis nos idos dos tempos das Missões. Agora, um condomínio de jundiás, como dizia o Cigarra. E logo estávamos com as linhas na água e, separados, ouvíamos bem o som redondo das chumbadas caindo na água. Pouco falávamos, que o silêncio é amigo dos anzois.

Mas peixe que é bom, nada. E nada no escuro da meia-noite é o caminho dos assombros. Pois foi! Assim, de repente, ali no mais fundo do fundo, ouvimos como que uma pedra caindo na água. Um susto no silêncio de cemitério que havia entre nós. Mas o Cigarra, um tiaraju missioneiro, botou a boca no vazio da noite, e disse bem alto:

– Pois que caia mais uma!

Povo, mais uma caiu, bem mais perto, mas a água não se movia.

– Pois que caia mais duas – berrou o mesmo tiaraju metido a valente.

Não sei como, o mesmo barulho de duas pedras caindo na água, ploft, ploft, bem mais perto de onde estávamos, a água ali na luz da lua, mas nada de movimento. Então o Cigarra levantou-se e, desafiando o insólito, gritou para todos os lados:

– Pois que caiam todas, todas!

O que se ouviu era de botar os pelos em pé: como se fossem dezenas de pedras caídas não sei de onde, o poço se encheu de marulhos por toda a extensão, cessando imediatamente e voltando à mansidão de antes em segundos. Eu não corri porque nem saberia para onde ir sem os companheiros. Mas foi o Wande que, na sua calma habitual disse, quase que ordenando:

– Mário, recolhe as linhas e vamos indo que aqui não dá jundiá.

E o Cigarra:

– Mário, aqui hai cosas!

Já no acampamento, ele contou o sucedido e acrescentou que só viera embora porque ia ficar sem lanterna. Mas que se tivesse companheiro para voltar ao local, ele voltaria. Não arrumou companheiro.