Áudio do Mapping Natal “Cidade dos Anjos” – 2013

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Depois do que os milhares de santo-angelenses viram na Praça Leônidas Ribas, na noite de terça-feira, dia 10, acho que é importante publicar o texto que é falado durante a apresentação do Mapping, aquela projeção espetacular feira na fachada da catedral. Esse texto é meu e o fiz a pedido da produção. Acho que é um bom texto, muito bem interpretado no vídeo da Projeção Mapeada. Até dia 31 de dezembro, todas as noites poderá ser ouvido no espetáculo “Vitrais de Natal”, que é o nome daquela projeção.

LOCUTOR – Que linda é esta igreja. As arcadas do pórtico e seus anjos guaranis. Os santos dos Sete Povos por sobre o Anjo da Guarda, o Santo Ângelo Custódio. As torres majestosas, os sinos que há séculos chamam para a oração, nas mesmas horas, no mesmo local. E lá no alto, a Cruz de dois braços, o símbolo perpétuo das Missões. Ah, as Missões dos Sete Povos, essa história que se revelou aqui, nesta igreja, nesta praça que pisamos agora, na vida, morte e glória dos guerreiros guaranis.
É tempo de Natal. Pois então que os anjos de todos os tempos tragam padres e índios que viveram neste mesmo cenário de igreja e céu, e nos contem um pouco de sua glória e desgraça. Que saia do coração destas pedras o fundador de Santo Ângelo Custódio, padre Diogo Haze, e do mesmo púlpito de onde pregou as dores da Paixão de Cristo e as alegrias gloriosas do Natal de 1706, nos traga outra vez a boa nova do nascimento do Menino Deus.

Pe. Diogo Haze – Que templo, meu Deus! Que luzes sobre esta fachada idêntica à igreja que vi em São Miguel Arcanjo, faz três séculos. E esta é a minha igreja. Aqui não importa o tempo, nem as pedras que se foram, nem meus filhos guaranis que a ergueram: esta é a minha igreja, do meu Santo Ângelo Custódio. E esta praça, ó bom Deus, que lembranças! Quantas vezes eu acompanhei, do alto dessa escada, as simulações de lutas de nossos guerreiros, as cavalhadas, os folguedos guaranis, as procissões de Santo Isidro que partiam daqui rumo à colheita da erva-mate, nossa maior riqueza. E os anjos, e os inúmeros artistas que anexaram asas em todos os santos da igreja, e as crianças guaranis, feitas anjos, carregando o Menino Deus. Minha igreja era um templo de anjos que fazia acorrerem para cá nossas reduções irmãs. Sim, fomos a última redução dos Sete Povos ao oriente do rio Uruguai. E eu quis minha igreja voltada para o sul, para receber todas as noites a visita do Cruzeiro. Minha Santo Ângelo Custódio, a caçula, a mais linda, a mais rica.
Eu conheci São Borja, a primeira, a mais antiga. Eu estava lá na festa da fundação em 1682, e já sonhava com um povo inteiro dedicado ao Anjo da Guarda. E estive nas missas solenes das fundações de São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel Arcanjo, todas em 1687. Em São Lourenço Mártir, em 1690, pedi a Deus que me conduzisse no caminho das asas protetoras de seus anjos até o meu grande sonho: uma aldeia sob as bênçãos do anjo da guarda. Então aconteceu São João Batista, em 1697. E lá conheci um pedaço do céu com seus corais e orquestras e crianças guaranis bailarinas. Era Natal. Nada mais belo e comovente que ver uma criancinha no berço feito Menino Jesus, e centenas de meninos e meninas índias feitos anjos com suas asas abertas sobre o recém nascido. A orquestra do padre Antônio Sepp tocava hinos de Natal.
No ano de 1706, Deus me concedeu a glória do meu sonho alado: fui destacado para guiar quase três mil guaranis até aqui. Quando partimos de Concepción de La Sierra, já estava decidido: íamos rumo a um local que se chamaria Santo Ângelo Custódio. Viemos, crianças, jovens, mulheres, homens, cada um com seu anjo. Foram doze dias de feliz caminhada. Era 12 de agosto de 1706. Mal tínhamos tempo para erguer um pequeno templo para celebrar nossas missas. E foi no Natal daquele ano que esses ares, essa praça, nossa gente missioneira, todos pudemos ouvir e ver, pela primeira vez, as vozes infantis cantando hinos natalinos, os anjos bailarinos girando e dançando em torno do berço do Menino Deus.
Estava consolidada a redução de Santo Ângelo Custódio. E aqui está ela atravessando os séculos, no mesmo lugar, viva, iluminada, grandiosa e sempre sob as asas do Anjo da Guarda. É tempo de celebração do Natal, outra vez e sempre, nos corações que renascem junto com o Deus Menino. Para cá ele foi conduzido há três séculos pelos anjos dos guaranis, e aqui ele está nos corações que habitam Santo Ângelo, a Cidade dos Anjos.