Bagunça como alternativa

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Ufa! Estou aliviado! Precisei de setenta anos para saber que eu estava certo! Imaginem, setenta anos de dúvida, de constrangimento e de certo pejo. Sim, estou aliviado!

Hoje posso contar a história toda. E com orgulho. Começou quando ainda era bebê! Minha mãe vivia me atormentando porque que eu não tinha o menor tino para a organização dos meus cueiros, mamadeiras, chupetas, toucas, chocalhos e coisinhas de neném. Depois veio a escola. Aí foi um Deus nos acuda. Lousa, cadernos, livros, lápis de pedra e de grafite, borrachas, caneta com pena, tinteiro, merendeira, pasta, tudo virado no que é aquilo. Literalmente perdidos a cada manhã. Temas de casa? Fazia-os abaixo de puxões de orelha e ameaças de vara de marmelo. Depois mais, fui para o seminário estudar para padre. Ali era um tal de bedel, uma espécie de fiscal dedo-duro, um cara chato que vinha averiguar a minha estante, onde se guardava o material para o estudo, e sempre me denunciava para o padre superior. Que era uma bagunça, que nada estava no lugar, que havia poeira, que comia o lápis, que havia papel amassado, que isso, que aquilo. Que carinha nojento, aquele bedel!

Mais tarde, foi longe do seminário de quem me despedi sem aviso prévio. Era no quartel. Passei as minhas lá, não pela marcha soldado cabeça de papel, mas pela bela arrumação do meu armário. Só arrumava quando havia inspeção, se desse tempo! No quartel, a ordem e limpeza eram fundamentais. Que o digam os meus coturnos na minha foto de milico: reluzentes!

Terminado o serviço às armas da Infantaria, sobreveio o namoro. Era tempo de se organizar sob pena de perder todas as pretê, como diziam uns paranoicos sociality’s. Perdi muitas namoradas simplesmente porque eu não tinha os bilhetes das amadas organizados por data, hora, minuto e local. Tinha-os guardados, sim, mas dentro de um envelope amassado, junto com outros trecos de amores e coisa e tal.

Por fim, desabou o casamento que já dura quarenta e oito anos. Aí a coisa ficou feia! Continuo com a bagunça? Sim, mas melhorei muito, que casar é também ceder. Cede um pouco aqui, um pouco ali, um pouco acolá, tudo em nome do amor. Continuo com as cartas amorosas num envelope, mas só as da amada, e sei onde está o dito. Amarelinho de velho, mas um tesouro. No entanto, não há quem me convença de que preciso arrumar esse monte de papel, livros, cartas, anotações, pendrives, devedês, cedês, disquetes, recortes de jornais, figuras, fotos, canetas, calendário, impressora, fios e o diabo a quatro aqui ao lado do computador. Que barbaridade, que vergonha! E eu morreria assim, com essa fama de que meu local de trabalho é uma bagunça total, se não fosse uma pequena nota numa revista mensal que assino. Ela me salvou, me redimiu e resgatou minha sensatez que já estava a perigo.

Que diz a nota?

Que dois cientistas sociais, Abigail Sellen e Richard Harper, autores do livro O mito do escritório sem papel, depois de uma série de estudos feitos nas mais variadas profissões, concluíram que quem tem sua mesa de trabalho sempre bagunçada, rende mais do que aqueles que têm tudo arquivado, bonitinho, guardados em ordem impecável. E a mesa? Limpa e lisa como bumbum de criança depois do banho. E cheirosa, credo! E mais: dizem que “quem tem a mesa bagunçada, tem a cabeça em ordem.” E acrescentam que esse profissional da bagunça “tirou a confusão da cabeça e a despejou sobre a mesa.” Em resumo, quem tem a mesa bagunçada tem a cabeça em ordem. Viva eu!

Viva, mesmo! Ali está minha cara, com a alma lavada. Espero, agora, que quando me pedem um livro que está no meio dos mais de dois mil volumes da minha biblioteca, fora a papelama, suplementos culturais, rascunhos de livros, originais escritos a mão, revistas, filmes de vídeo, caixotes, pastas, coleções de dicionários, fotografias, o escambau, não me venham com aquela estranheza de que eu não sou capaz de achar o livro que querem em menos tempo que se gasta para abrir um arquivo no computador. Mas, peço encarecidamente, nunca tentem colocar em ordem essa maravilhosa bagunça. Ela é a ordem!