Carnaval, uma festa da luxúria

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Claro que todo mundo sabe que o carnaval é mesmo uma festa ligada ao prazer. Foi assim lá com os gregos, quando a festa era dirigida para os deuses da fertilidade e produtividade da terra. Sim, fertilidade e produtividade da terra, do solo, e não fertilidade e produtividade da mulher. Mas os limites entre plantar sementes na terra e deitar sementes na mulher eram muito tênues, e logo se romperam. O que sobrou foi essa ideia de vale tudo, fundamentos que vêm desde os romanos: orgias sexuais, bebedeiras, bacanais sem limites entre o prazer e a devassidão.

Houve um tempo em que as coisas do sexo exposto no carnaval mermaram, mais por imposição da igreja do que por vontade do homem. Houve um tempo que o carnaval se chamava entrudo. Que nome! Então alinharam-se os bailes de máscaras (imaginem máscara para quê?), os grupos de foliões comportados, os blocos, quase tudo perpetrado dentro dos salões. Mas sempre, invariavelmente, festas folionas ligadas ao prazer. Prazer que nunca foi muito longe daquilo que a bebida, a comida e o sexo proporcionam.

Cada país arranjou-se a seu modo e condições com as celebrações carnavalescas. O nosso, bem a gosto popular, acabou nos grandes desfiles que arrastam multidões para dentro das avenidas e passarelas e outras tantas multidões fora delas. É, sem dúvida, uma das expressões culturais mais expostas, já que os desfiles das escolas carnavalescas sempre traduzem em seus enredos pedaços da história ou da criação humana. Acho que é por isso que se chamam “escolas” as organizações populares em torno de uma bandeira de ideias: elas, de certa forma, ensinam, traduzem, manifestam elementos de que a população se alimenta culturalmente.

Isso é ideia minha, nascida do que vivi, por poucas horas, junto a componentes de uma escola aqui de Santo Ângelo. Eles queriam informações detalhadas a respeito de seus enredos ainda em gestação. E as informações que lhes pude passar, eram informações que serviriam muito bem para uma sala de aula, ora de história, ora de filosofia, ora de antropologia. E isso foi repassado para a rua através dos carros alegóricos, das roupas e adereços, da letra do samba que dava ritmo à passagem da escola. Foram muito bons alunos, diga-se de passagem!
Isso de que falo acima é um tipo de prazer proporcionado pelo carnaval. Mas quem vê assim? Quem consegue perceber essa parte recôndita do carnaval como prazer? Se eu disser que os desfiles ainda são a parte da festa carnavalesca mais saudável, talvez até consiga alguns adeptos. Mas duvido que não haja a turbamulta que não se liga nessas questões. Há outros interesses que roubam a cena e que encaminham os olhos e a mente e, fatalmente, volta aos antigos gostos das bacanálias. Quem desviará os olhos dos bumbuns semidesnudos em requebros alucinógenos, quem desviará o olhar dos seios palpitantes ali quase ao alcance da mão, todos no bater intermitente da bateria condutora de todos os gingados? E os sorrisos dessas mulheres, e os olhares, o os gestos lúbricos? É lindo demais, é encantador demais, é atração demais para uma só noite!

Então, pelo que se vê, a preocupação dos responsáveis pela saúde pública estará a postos. Não me refiro a ambulâncias e paramédicos. Aponto a atividade de distribuição de milhares de anticonceptivos, as tais camisinhas salvadoras de prenhezes indesejadas, de doenças sexualmente transmissíveis e de outras coisas que tais. E por que isso no carnaval, especialmente no carnaval? Ora, ora, porque aquele jeito romano de mais de dois mil anos de festejar o carnaval não mudou nada. Que festejar a fertilidade do solo, que festejar a produtividade da terra, que nada! Pelo número de camisinhas distribuídas nesses dias, o negócio é para impedir a fertilidade da mulher, sobrando somente o prazer. E viva o prazer!