Carta para sílfide

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Sei que tu não receberás esta carta, minha pequena Sílfide. O primeiro deus que puser as mãos neste papel vai ler o que estou escrevendo e rirá de mim atirando-o no lixo. Sabes por que os deuses riem dos nossos sonhos? Porque os deuses não sonham. Se sonhassem, não haveria tanta gente infeliz.

Por isso, enquanto não posso te ver e te ouvir, fico aqui observando o dia, observando a noite, observando o céu e a terra, bem como me ensinaste. Há tanta beleza! Mas de tudo que aprendi contigo, acho mais admirável o dia. Não me canso de ver como o dia é imenso, ao contrário da noite, que é pequena. O dia é aberto e a noite, fechada. De dia, lá se vão meus olhos para todos os lados, até distâncias invisíveis. Às vezes observo a paisagem do alto da minha janela: é um império, e sinto-me muito pequeno para tanta coisa posta ali. Sabes, minha Sílfide, o homem não se dá conta da importância que o dia tem. Bem diferente és tu, que vives nestes levíssimos sopros das irmãs dos ventos brandos – a aragem, a viração, a brisa –, que te banhas nas gotas do orvalho de uma folha, o homem tem o dia para sofrer. Para trabalhar. Para explorar e ser explorado. Para catar o pão com o suor de seu corpo. Para mendigar aos déspotas tanto as migalhas que sobram às mesas fartas como as mínimas palavras de justiça. Não, minha Sílfide, o homem não espera o dia.

Não me está entendendo, filha das fontes? Veja, para o homem, o dia é cheio de obrigações, de trabalho, de cobranças e muito cansaço. É de dia que acontecem os julgamentos, as execuções, as sentenças de morte e a vã correria pela vida. E por essas tantas coisas que inventou para fazer durante o dia, o homem, este ser confuso e grande, perdeu a capacidade de ver o outro lado do dia. Mal sabe ele, Sílfide formosa, que há mais beleza num metro quadrado de um jardim florido iluminado pelo sol que em todo esplendor do mais alto edifício da terra. Mas quem é capaz de ver assim as coisas naturais que o dia nos dá, sem nenhuma cobrança? Não há mais tempo, para o homem. Ele o prendeu em deveres e buscas inúteis. Prendeu todo o seu tempo para usá-lo somente no acúmulo de riquezas supérfluas, que sequer poderá carregá-las um só passo além de sua hora. Um fardo pesado na vida, e sem a menor importância quando o sol se apagar. E pior, minha querida Sílfide, é que o homem só percebe esta verdade quando está no fim de seu próprio tempo, isto é, nos últimos limites que todos negam para si mesmos. Isso é triste, mas mais triste ainda sabendo que perdeu seu tempo na iluminura do dia.

Tu buscas teu ninho já no primeiro estertor da luz do dia, ninfa adorada. Embalas as folhas de todas as florestas e as pétalas de todas as flores, para que a noite seja apenas a cortina da alvorada. Tu nem tens ouvido nem alma para a noite profunda, onde moram os mistérios. Também descansas nestas horas incertas, onde vagueiam os poetas malditos em busca do último sonho. Os poetas da mais perdida hora da noite nem mais percebem que são fantasmas à procura de almas penadas que perderam seu pesadelo. À noite, descansam as ambições que supriram de angústia o dia do homem. À noite, perambulam os cães famintos e os ladrões. À noite, as promessas de amor não duram mais que as horas escuras, porque o amor verdadeiro é irmão do dia: claro, aberto, e nunca se pode divisar seus confins, tal sua imensidão de céu azul, tal sua amplidão de horizonte de mar.

Vê, Sílfide minha, enquanto tu descansas à noite para outra vez embalar as pétalas e as folhas, o homem descansa para outra vez recomeçar a luta das ambições, as dores do eterno parto da sobrevivência, a busca das inutilidades terrenas e a construção de pesadelos.

Pois, amigo leitor, que o novo ano, 2013, que se abre hoje te seja mais Sílfide e menos pesadelo.