Cenas de Verão III

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 Impiedoso o sol, ao meio-dia,
Empurra o mundo para as sombras.
– Que lua, carácoles, que lua,
Diz um cara na rua.

Estuprando brotos de cinamomo,
Arde no asfalto que se derrete.
No bar passa voando uma bandeja,
Carregada de cerveja.

Na calçada, esparramam-se as mesas,
Camisa aberta no peito ventila.
O lixo, ali no coletor, fede à carniça.
Que baita preguiça!

Poreja um pobre gordo de bermuda,
Mal carregando as imensas nádegas.
Passa a minissaia da menina,
E o sol mais a ilumina.

Um guri assopra o sonoro apito,
Torrando o carrinho de picolé.
Quem precisa, o passo apura,
É geral a tortura!

Mulher de meia-idade busca o vento
Num leque improvisado de revista.
O asfalto reverbera, parece fogo,
Dá pra fritar um ovo.

As moças com panos transparentes,
Ganham um ventinho nas pernas
Nos vestidos “tomara que caia”,
Com aberturas na saia.

Cachorros resfolegam preguiçosos,
Pastas servem de chapéus.
Sombrinhas são velhas que usam,
Usam e abusam.

Os pardais, nas frondes do ipê-roxo,
De asas abertas espiam os homens.
Devagar, tudo devagar, mal e mal,
Eta preguiça total !

E nesta pasmaceira de um dia de fogo,
As horas não passam, se arrastam.
No bar o povo se dessedenta,
Bebendo em câmara-lenta.

– Que calor!, diz a mocinha,
Assoprando dentro da blusa.
– Moça, assoprar não adianta – alguém diz,
– Faça logo um “estripetiz”.

A pedido do poeta Maurício Anchieta