Cenas do Vestibular

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 A donzela foi dormir cedo. Antes, recebeu um carinho especial do pai, da mãe, dos irmãos e do namorado. Uma coisa diferente, como se fosse deitar para nunca mais levantar. Isso enervou-a ainda mais, a ponto de ficar para depois uma revisão mental que pretendia fazer antes que Morfeu a tomasse em seus braços para o descanso de guerreira.

Não revisou nada e nem dormir não conseguia. Com tanta ansiedade dos outros, como seria se não lograsse aprovação no vestibular? Como reagiriam seus familiares se voltasse para casa com o rabo enfiado no meio das pernas por causa de uns míseros 18 acertos quando deveria fazer um mínimo de 30? E seu namorado, não acharia que estava pretendendo casar, sem saber, com uma “lora bura”? Bem que tentava se fixar em imaginárias questões de química, física, matemática. O que vinha na frente eram os passos miúdos do pessoal da casa com medo de acordá-la, as falas pra lá de baixas, as portas fechadas com cuidado, tudo como se ela fosse uma doente, ou um bebê chorão.

Dormiu, enfim, não contando carneirinhos, mas somando colegas vestibulandos que saltavam as classes, sorridentes, e, para seu desespero, por cima dela. Um galo cantou logo após que se entregou ao sono ou foi outro o som que se pode ouvir na madrugada?
– Acorde, filha, acorde que está na hora!

Acostumada a levantar quando o almoço estava servido, chegou a sentir a fome de sempre. Mas a bruta realidade saltou de umas apostilas do cursinho que estavam espalhadas pelo chão, e de dezenas de fórmulas matemáticas desenhadas em papéis grudados nas paredes.

– Ó, Deus meu! É hoje.

No café, um copo de leite a que não estava acostumada, um iogurte que nunca tomara, um pedaço de mamão que jamais aceitara, e os olhares de pena vindos de todos. A mãe examinava uma bolsinha para ver se ali estavam o lápis, a caneta, a borracha, uns lencinhos de papel. Tudo em ordem, hora de partir. Uma partida como quem vai para o matadouro, ou para o cemitério, chegou a fazer com que ela dissesse constrangida:

– Sorriem, gente! Que coisa!

Que coisa foi o que ela sentiu logo que pisou na sala de aula e procurava uma classe para se estabelecer. Um ronco na barriga, um ronquinho miserável, como se por ali, entre o estômago e as tripas, se pronunciasse uma nuvem carregada de outros roncos possíveis. Não deu atenção ou fez que nem era na sua barriga.

O pessoal foi chegando, ocupando as classes disponíveis. Pouca conversa, um clima de nervosismo ou o silêncio que se instala entre gente desconhecida? De fato, poucas caras lhe eram familiares, e estes mesmos com cara mais séria que de costume. O que lhe pareceu é que todos, mas todos indistintamente, tinham a cara de gente que sabia muito mais do que ela. Caras de gente quase já doutores. Olha aquele careca, deve saber tudo, deve ser um professor que, já aposentado, não tem o que fazer senão vir ali tomar a vaga dela. Olha aquele outro bigodudo! Deve ser formado em administração e vem aí se meter a advogado. Deviam proibir gente desse tipo fazer vestibular junto com crianças como eu. Que merda! Olha lá a minha profe de português! Era só o que me faltava.

Ouviu-se uma sineta. Três fiscais com credenciais no peito entraram na sala, todos com cara de poucos amigos. Um portava uma pilha de provas que pareceram à menina grossas demais para quatro horas de tempo disponível. E ainda tem a redação? O que que esses caras estão pensando?

Quase ao mesmo tempo em que um fiscal iniciou a distribuição das provas e outro dava algumas instruções a viva voz, a nossa vestibulanda ouviu outra vez o ronco de antes. Dessa vez, ouviu e sentiu. Não tinha mais dúvidas da origem: era de sua barriga mesmo. Não querendo acreditar no que poderia vir mais adiante, desconversou seu pensamento e pediu calma a si mesma. O negócio é não perder o controle dos nervos, dizia o professor no cursinho. Respire fundo, relaxe. Saiba que todos os que estão na sala contigo sabem tanto quanto você. Mas e o careca? E a profe de português? Animou-se lembrando que essa profe não sabia nada de matemática, de física, de química. Que se dane!

Abriu a prova, era o início. Nem chegou a ler as instruções constantes na primeira página e a barriga deu outro sinal, dessa vez diferente e ameaçador. Respirou mais fundo, mas a barriga não gostou nem um pouco da reação e respondeu com uma pequena cólica localizada. Um calor subiu-lhe pelo corpo e, ao ler a primeira pergunta já não podia mais contar com a discrição da barriga. Chamou um fiscal e, vermelha de pejo, pediu:

– Onde é o banheiro?

– Mas já! – respondeu o fiscal.

Aquele “já” foi uma bomba. Levantou-se e saiu correndo, sumindo pela porta. Não retornou mais. E, pelo que se sabe, vai odiar leite, iogurte, mamão e fiscais pelo resto da vida.