Comandaí, Caminhões e Prestes

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Eu morava lá, e não sabia que os mistérios também dão lugar para a história. Nos anos de minha juventude era o tempo de um Comandaí de lobisomens, fantasmas voadores, figuras de branco correndo na várzea rumo ao açude que dava de beber a uma olaria de barro de sangue. Os trilhos do trem escondiam tentações variadas, de partidas para o nunca mais, de ânsias engasgadas, de alegrias de retornos impossíveis, de tragédias não esperadas.

Hoje, o Comandaí deixou sua identidade no último vagão do último trem, e perdeu quase toda sua gente. Tentou, bem que tentou agarrar-se nos laços do progresso que passou por ali, mas não resistiu à funesta ação que essas tentativas produzem na alma de uma vila cheia de sons de sinos de igrejas, de trens, de vacas e éguas madrinhas. De sons da bigorna do último ferreiro, da gaita manhosa na calada da noite, de cantorias em italiano de velhos imigrantes que morreram sem nunca matar a saudade da terra pátria. De procissões do Divino cheia de anjinhos com asas de papel crepom. Do cântico “Queremos Deus, homens ingratos”, das ladainhas intermináveis de Todos os Santos.

Dos berros de bois perdidos no campo lindeiro à vila, dos latidos longes de cães assombrados, tão silenciosa a noite do Comandaí, tão tristes os gemidos do urutau, tão estridentes os cri-cris dos grilos. O silêncio era um espanto do mundo.

E eu morava lá, e não sabia que os mistérios morrem à luz da história. Agora é Prestes, o Cavaleiro da Esperança que domina a paisagem bucólica. Que passou por aquelas doces plagas e levantou sua Coluna revolucionária atravessando o país com seu grito de justiça. Tão largo e longo como os caminhos que desbravou na carne das coxilhas do Comandaí. E fez a ponte sobre o rio do feijão, onde os trens vinham apagar sua sede eterna de água fresca para um corpo em brasa, literalmente. Como doíam aqueles apitos longos e tristíssimos dos trens cansados, no oco da noite. Eram eles que acordavam os guardadores de tesouros jesuíticos, às vezes missionários mortos, outras, índios condenados, outras mais, almas penadas que perderam o caminho da tumba dos cemitérios de costados de estradas.

Bastou um olhar, um traço no papel, e o homem disse: danem-se os mistérios dessas terras, danem-se os espíritos dos guerreiros de Prestes, danem-se as lendas e os causos desse rio e dessa cascata, faz-se aqui a luz que girará as engrenagens do mundo novo e iluminará até o fundo do quintal, onde se agrupam os mortos para relembrarem a vida. Espantemos todos os vultos e sombras que amarguravam os meninos nas noites de tormenta. Faz-se a luz, e a luz foi feita.

Prestes ressuscitou nesse momento. Ele anda por lá à espera dos caminhantes de lenço vermelho. É um direito seu a ressurreição pelos feitos que julgamos gloriosos. É um direito das águas do Comandaí moverem uma usina. Já não há mais trens, já não há mais guerreiros de Prestes, já não há mais os “tucos” e nem mais há quem lembre a mocinha que morreu por amor, afogando-se na cascata do rio de feijão. Nem do desgosto de uma noiva, a Belinha, que não suportou a partida de seu amado no coração de um trem de passageiros, e por isso jogou-se sobre os trilhos, deixando-se esmagar pelo mesmo trem que levava seu sonho. Quanta gente a viu caminhando sobre os trilhos, equilibrando sua leveza branca, até sumir rumo à ponte de Prestes, sempre às noites de sexta-feira. As missas por sua alma e as rezas das velhas beatas do Comandaí não servem para tamanho sofrimento. Ah, são tantos miles de causos e casos, arrepios, assombrações e enterros de ouro guardados sob o tronco de velhos umbus e de figueiras milenares.

As águas do Comandaí seguirão seu destino eterno, e elas não entenderão por que precisam ser apagadas da memória humana essas figuras lendárias do chão missioneiro para pagar o preço da modernidade? Ah, meu Comandaí, rio do feijão guarani.