Conhecimento a preço de banana

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Tenho um amigo escritor, ex-colega do meu velho curso de letras, que gosta muito de mexer com as palavras. Não sei onde “furunga” tanta resposta para questões de significados das palavras que usamos, ou que se formam novas, isto é, neologismos. Encontra resposta para tudo e, creio, convence. Muitos de meus leitores conhecem o escritor de que falo e, para que não me acoimem de egoísta, digo que é o Dionísio da Silva, hoje na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ele é o autor de A Cidade dos Padres, polêmico e ousado livro que trata das nossas Missões.

Mas não é das Missões que quero falar, nem do Dionísio. Eu acho que a ocasião faz o ladrão; como estou lendo um dos livros do meu ex-colega, A Vida Íntima das Palavras, é da intimidade com elas que pretendo tratar aqui. É que existem tantas expressões que usamos no dia a dia, que nem nos damos conta de que quase todas têm um significado muito amplo e, às vezes, cheio de malícias. Mas como ao bom entendedor, meia palavra basta, vamos a elas, às expressões de que falei. Sem pressa, já que a pressa é inimiga da perfeição.

Vejam, até aqui usei quatro dessas expressões e, creio, poucos, talvez, se deram conta de que são de uso comum. Se eu tivesse usado, por exemplo, que “a emenda saiu pior que o soneto”, quem sabe chamaria a atenção do leitor, daquele que, eventualmente, não sabe o que é um soneto. Assim, nem todas as expressões de uso comum são tão acessíveis. São os tais de aforismos, ou ditados, ou máximas, ou sentenças. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, todo mundo entende. Assim como entenderiam, suponho, expressões como “a voz do povo é a voz de Deus”.

Alguns desses aforismos estão cheios de manhas, de possibilidades de serem entendidos com segundas intenções, às vezes com humor ou com traços de mordacidade. Vejam esse, por exemplo: “as mulheres perdidas são as mais procuradas”. Mulheres perdidas? Você já procurou uma mulher perdida? Perderam-se onde? Será que as mulheres se perdem porque “caem na gandaia”?

Outra sentença bem conhecida, e que tem seu berço em pregações cristãs muito antigas, é aquela ouvida nos casamentos, normalmente, ainda dentro da igreja: “até que a morte os separe”. Diga-se de passagem, ouvir essa sentença (porque é uma sentença mesmo) ao pé do altar, ali no cavaco, com a vida a dois nem bem começando e já falando em morte, separação, isso é coisa dolorida. Não sabemos o que pode passar pela cabeça dos noivos, mas eu creio que poderão ocorrer lembranças de outros ditados como “isso é conversa mole pra boi dormir”, “de boas intenções o inferno está cheio”, “isso é do tempo do Ariri Pistola”, “errar é humano”, ficar juntos até um de nós “bater as botas”? Mas nem morta!

Há outros aforismos malandros e muito bons de serem usados quando a ocasião favorece. “Comer mortadela e arrotar peru”, “dar uma de joão-sem-braço”, “dois bicudos não se beijam”, “eles que são brancos que se entendam”, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, “foi o maior arranca-rabo”, “são todos farinha do mesmo saco”, “tem pai que é cego”. Esses são os meus preferidos quando a “coisa fica feia”. Acho que a gente deve ter um arsenal desses guardados para momentos especiais.

Mas, infelizmente, como nossa língua não é só de domínio popular, outras expressões se atravancam em nossos colóquios e podem nos “deixar a ver navios”. Como reagir quando alguém te diz “alea jacta est”? Ou “até tu, Brutus”? Ou alguém te diz que tu és “feio como Quasímodo”? Esse alguém nos odeia ou nos preza muito? Vá saber! Essa situação é “um nó górdio”.

Claro, nem tudo “é dado de mão beijada”. Há coisas que “custam o olho da cara” e outras que “só fazem tempestade em copo d’água”. De qualquer maneira, para muito blá-blá-blá da “última flor do Lácio, inculta e bela”, a “Inês é morta”. Como o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que anda de arrasto, por exemplo.