Constatações escabrosas

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Quando se lê um pouco sobre os movimentos das artes e suas manifestações nos derradeiros anos do final do século passado, preponderam as que apregoavam o caos e a descrença na humanidade de então. Agora, a poucos meses do final do século e do milênio, as raras observações de pensadores e de possíveis artistas de vanguarda tendem para uma posição idêntica: o mundo não aprendeu nada, ou quase nada. A insegurança e a indefinição quanto ao futuro são as mesmas de cem anos atrás.

O final dos anos oitocentos foi marcado por ismos que traduziam a irresolução da humanidade e a descrença nos valores, mormente europeus, uma vez que era a Europa que ditava os caminhos do homem. O futurismo chegou a pregar a guerra como única saída para higienizar o mundo, o que, convenhamos, é o fim da picada. O cubismo desenhou um universo em fragmentos, sem unidade alguma. O expressionismo e o impressionismo, mais moderados, aderiram à subjetividade e ao sensorialismo como forma de mostrar a impotência das convenções e da razão. O surrealismo escondeu-se no sonho, fazendo do onírico sua única realidade. O dadaísmo, não acreditando mais em nenhum valor convencional, agarrou-se ao niilismo. O decadentismo, que tomou depois o nome de simbolismo, partiu para os esconderijos do subconsciente como maneira de fugir à dura realidade. E há ainda o socialismo utópico do comunismo e suas variáveis, o capitalismo que se mostrou selvagem, e mais dezenas de ismos espalhados pelos quatro cantos redondos da terra.

Talvez a única via que tornava todos os ismos semanticamente próximos era a descrença nos valores constituídos até então. Como disse antes, o caos.

Pois, sim! Num debate sobre essas questões com alunos universitários locais, perguntava-se que valores eram esses nos quais a humanidade do final do século passado não mais acreditava. Então, o coordenador do debate iniciou uma ladainha de perguntas, cujas respostas dadas em massa eram sempre um sonoro e uníssono não.

– Vocês acreditam na justiça atual?

– Não!

– Vocês acreditam na classe política e suas instituições?

– Não!

– Vocês acreditam na polícia?

– Não!

– Vocês acreditam na educação atual?

– Não!

Nos governos, na igreja, no casamento, na família, no sistema, na bondade, na economia, na fraternidade, na ciência, na escola, na amizade, na previdência, na saúde pública, na segurança, na liberdade, no escambau?

Não! Não! Não! Tudo não!

Quando o coordenador terminou a ladainha, houve um silêncio geral de constatação. Um silêncio que fazia aquelas cabeças voltarem para trás um século e darem-se conta de que a humanidade marchou, marchou cem anos sem sair do lugar. Doeu!

Mas o intrigante dessas constatações vem agora: essa crônica eu a escrevi e publiquei no ano final de 1999. Lá se vão treze anos, e o que mudou? Será que nas mesmas circunstâncias não ouviremos as mesmas respostas? Ou, para um cenário mais tenebroso do nosso tempo, as respostas seriam ainda mais negativas?

Eu não apostaria numa inversão das respostas, nem aqui, nem na Conchinchina.