De panetones e leitões

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 Fim de ano, aquela noite de 31 de dezembro e o primeiro dia de janeiro, que barbaridade! Come-se tudo e se bebe todas, segundo os menos interessados em significados mais profundos das festas de Ano Novo. Realmente, Feliz Natal e próspero Ano Novo é um tipo de desejo ou votos que não significam nada além do caráter repetitivo e cópia de uma frase milenar, já usada pelos gregos e troianos muito antes do aparecimento do Ariri Pistola. Um cartão ou um mail contendo apenas essa frase mostra que o remetente apenas cumpriu um ritual, e não a extensão de seus sentimentos. Às vezes, o remetente nem assina o cartão.

No entanto, isso não impede que o Natal e o Ano Novo não contagiem a todos. Que o digam as lojas e o lixo. As lojas, pelo intenso embrulhar de presentes; o lixo, pelo caos colorido dos mesmos papéis de presentes. E todo mundo fica alegre, com ou sem votos de Feliz Natal e próspero Ano Novo. Inclusive eu.

Então, como todo o mundo, deito e rolo nos jantares, ceias, almoços, cafés e repastos. Há muita coisa gostosa nesses dias apoderando-se das mesas. Irresistíveis. A glicemia, os triglicerídeos e o colesterol ficam de cabelo em pé, além do fígado que não sabe para que lado se atirar. Haja ressaca!

Neste universo de doces, salgados e líquidos, há duas coisas que não entendo bem o porquê estão tão presentes nas mesas, nesses dias: o panetone e o leitão.

O panetone, que é uma tradição italiana para as festas natalinas, é uma constante em todas as padarias e supermercados, e é objeto de presente também, tão bonito dentro de seu vestidinho com topinho e tudo. É gostoso, seja lá na variação que inventam para seu contudo. É panetone, é bom. No entanto, o que não me agrada e, no meu pouco conhecimento de culinária de pães especiais, é por que tem que ter aquele papel em torno do panetone, como se fosse a forma. Fica bonitinho? Fica. Mas também fica grudado na massa de tal jeito que, acho, não há como cortar uma fatia de panetone sem que pedaços do papel-forma não fique grudado. À menor distração, lá se vai para a boca um pedaço do papelão assado. Principalmente a parte inferior do panetone não se desgruda sem o auxílio de um faca ou coisa que valha. Será que existe um panetone que se desgruda facilmente da sua forma de papel?

A outra tradição presente nas festas de fim de ano é a carne de porco. O peru, economicamente substituído pelo tal chester, é coisa de Natal. Mas o porco não pode faltar à mesa na virada do ano. Dizem que é pelo significado presente no focinho do bicho, que só vai para frente. Porco fuça para frente, e isso é muito importante para comer, porque assim, quem o come, só vai fuçar para frente, isto é, só vai para frente. Observei muito os porcos fuçando. De fato, não há jeito de fuçarem para trás. Nessa minha importante pesquisa, percebi, também, que não há nada que tenha focinho e possa fuçar para trás. Até os que fuçam na vida dos vizinhos, fuçam para frente.

Mas, com fuçamento ou sem fuçamento, a carne do porco é muito apreciada. Concordo plenamente até chegar no lombo, aquele pedaço do suíno campeão, partícipe de todas as festas que se prezam. É um belo pedaço, sem dúvida, mas porque precisa ser sempre tão seco? Tão vazio do precioso suco das carnes no ponto? Com resquícios sequer de gordura, aquela banha dourada que nem mata nem engorda o colesterol? Desculpem-me os que apreciam um lombo de porco, mas em se tratando de carne suína, beleza não é fundamental.

Assim que, tirando o panetone, um artigo incompreensível com sua forma de papel grudada na massa recheada de frutas cristalizadas e passas, e afastando aquele lombo de porco que é lindo de morrer, mas nem parente da suculência das outras carnes, o Natal e o Ano Novo são mesmo festas lapidares de onde um vivente pode sair tanto renovado para iniciar um novo ciclo de tempo, como pode entrar no novo ciclo de tempo esbodegado. Tanto para um como para outro, panetone ou lombo de porco, pouco importam. Os espumantes falam mais alto depois da primeira taça.