Deixa que eu abro esta garrafa de vinho

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O inverno chegou e Baco com ele. Mas quem é esse Baco de quem a gente lembra mais no inverno? É o deus romano do vinho, contrapondo-se a Dionísio, deus grego do vinho.

Baco é o deus do etilismo, da borracheira, dos momentos de trago em excesso, dos desmandos do álcool, das orgias, mormente dos desregramentos sexuais produzidos pelo álcool. Tanto era que as festas a ele dedicadas, verdadeiras surubas em sua homenagem, traziam o sugestivo nome de bacanais. E todo mundo sabe o que é um bacanal.

Mas eu não tenho a intenção de falar da história desse deus de vida dissoluta, um libertino que aparece nas pinturas dos grandes artistas de todos os tempos com um copo na mão e uma mulher nua, ou uma taça sobre uma mesinha, ou sob o olhar atento de grandes cachos de uva. É um pervertido, no fundo, no fundo.

Eu me proponho a lembrar de cenas hilariantes provocadas pelo vinho, não depois de ingerido, mas antes, quando ainda está na garrafa: a arte de sacar a rolha, sem o que Baco não despertará nunca.

Hoje eu já não sofro para abrir uma garrafa de vinho. Descobri, numa prateleira do supermercado, um abridor que, com um gesto para baixo, entra na rolha, um gesto para cima saca a rolha, e no terceiro gesto cospe a rolha, tudo em três segundos. É cran, cran, cran, e Baco está livre para comandar seus desmandos etílicos.

Mas a coisa já não foi bem assim. Lá pelo tempo em que se tomava vinho de garrafão trazido ali do interior de Catuípe, não era muito comum encontrar saca-rolhas nas vendas. Então, não raro um garrafão de vinho tornava-se um drama para tirar aquela rolha plantada no gargalo. Havia quem o metia no meio dos joelhos, virado para baixo, e dava tapas na bunda do garrafão na certeza que ele cuspiria a rolha. Não cuspia. Então pegava uma toalha, dobrava-a muitas vezes e, com ela na parede, batia ali o traseiro do garrafão. Nada. O melhor remédio era, com um instrumento qualquer, empurrar a rolha para dentro e tudo estava resolvido.

Depois apareceram saca-rolhas de todos os tipos. O mais comum, no início, era aquele que tinha de um lado a pua, como diziam, e do outro, um cabinho de plástico horizontal. Metia-se a pua no centro da rolha e girava-se para a direita enterrando a rosca até que a ponta a atravessasse. Então, fazendo uma força danada, a rolha, poft, saía para a alegria geral. Mas, quantas e quantas vezes a pua ficava na rolha e a gente com cabinho de plástico na mão. Daí o drama era tirar a pua da rolha e não abrir a garrafa. O mais fácil era meter a rolha com a pua e tudo para dentro, e meta vinho que a turma tem pressa. Ninguém dava atenção para aqueles pedacinhos da rolha esfrangalhada dentro do vinho.

Dia desses, em tempos mais recentes, fui brindado com uma espécie de cápsula de ar comprimido com uma agulha anexa. A agulha era cravada na rolha até atravessá-la. Daí abria-se o ar, ou gás, não sei mais o que era mesmo, e, depois de uns segundos de injeção, a rolha começava a subir e, pronto, milagre! Era só despejar o precioso líquido nas taças sedentas. Essa engenhoca usei-a até uma noite de festa na casa de um amigo. Convidados lindos, mulheres vistosas em suas roupas, homens alegres, meninos, meninas, algazarra de amizades seculares, tudo certinho na mesa posta sobre uma toalha de linho. Era coisa de bodas de prata celebrada com pouca gente, muito íntimas para haver cerimonial e salamaleques inúteis.

Então veio a hora do deus Baco, era inverno, aquelas garrafas tentadoras e seus líquidos cobiçados. O abridor, onde está o abridor?

– Deixa que eu abro esta garrafa de vinho – falei eu, certo que a minha poderosa cápsula, trazida no bolso para exibir-me, idiota, faria sucesso como novidade.

Num canto da mesa cheirosa de pratos fumegantes, centro de olhares curiosos, meti a agulha na rolha e fui dando rédea para o gás no interior da garrafa. Talvez por exibido, talvez por distração ou euforia demasiada, sem que jamais imaginasse, sem aviso prévio, sem um sinal sequer, a rolha veio para fora empurrando a cápsula e tudo, vomitando o vinho para todos os lados, por sobre a mesa e cabeças e caras dos comensais gerando uma confusão danada recheada de gritos e gritinhos e risadas. Ainda bem, risadas.

Recolheram pratos, talheres, copos, trocaram a toalha, tudo acompanhado de quá-quá-quás. O jantar não se perdeu, além do vinho daquela garrafa de carmenere gran reserva. Ah, sim, perdi a camisa, que por azar era branca. Por bondade, o amigo anfitrião emprestou-me uma sua, alegando que devesse tirar a camisa banhada em vinho porque o contato desse líquido com a pele era mil vezes pior do que ingerindo-o em taças.

Troquei de camisa, sim, mas não por causa do perigoso contato com a pele, mas pelo cheiro azedo que emitia, facilmente confundido com outros odores possíveis.