Diálogo mais que possível

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Não sei se o que vai aqui é uma homenagem à ignorância, ou à vergonhosa petulância com que certos “representantes do povo” vão aos órgãos de imprensa azucrinar com a paciência até da cabeça que possui o menor volume de massa encefálica. Talvez eu não traga a perfeição total das respostas que ouvi, e nem possa reconstituir a entrevista “ipsis literis”: mas dá para se ter uma ideia razoável do que foi ao ar para todo mundo ouvir.

Dia desses, manhã de chuva calma, nada melhor do que ligar o “Bom dia, Rio Grande” na TV. Notícias regionais, de quando em vez gente conhecida se esforçando para sair bem na telinha. De repente anuncia-se a presença de uma importante prócere de um legislativo de por aí, que assumira a presidência de não sei o quê. Vamos, antes, ao intervalo! Minutos depois vinha ela, a prócere, enchendo a telinha de alegria, tentando passar um jeito de quem estava acostumada à televisão há séculos.

– Antes de mais nada, meu cordial bom dia aos ouvintes espetadores, bom dia! Sim, assumimos a presidência e queremos levar a nossa mensagem de presidente.

Pausa.

– E que mensagem nos traz? – pergunta a entrevistadora.

– Evidentemente que a presidência é um cargo de responsabilidade oficial, sendo que, evidentemente assumimos com muita garra, vontade e prazer. Sempre fomos contra o paradismo das responsabilidades oficiais assumidas.

– E o que pretende fazer como presidente?

– Evidentemente! Vamos cumprir o mandato outorgado pelos colegas com responsabilidade, com garra e muita coragem e trabalho.

Pausa constrangedora para a jornalista ao seu lado.

– E quais são os seus planos para os próximos anos?

– É claro que, evidentemente, temos muitos planos de administrar com toda a vontade, já que somos totalmente contra o paradismo. Queremos evidenciar os problemas da comunidade. Os problemas da comunidade têm que ser evidenciados. Já propus, na primeira reunião da presidência, que todos devem ter garra e vontade de trabalhar. A comunidade tem problemas na qual nos inserimos.

– E quais seriam esses problemas?

– Evidentemente que são muitos, sendo que a gente que tem um cargo como o meu tem que estar atenta a tudo. A pior coisa que tem é o paradismo.

Braços cruzados não é comigo, a minha comunidade me conhece. É preciso arregaçar as mangas e ser gente como a gente. O povo está aí, evidentemente, está vendo tudo e o povo é que fiscaliza.

– Você não acha que o povo é muito acomodado?

– Evidentemente, é muito acomodado mesmo. Mas a gente que tem um cargo como o meu sabe que qualquer deslize, digamos, paradismo, já todo mundo vem pra cima. Olha o que aconteceu com o Collor!

– O Collor? Tanto tempo… Você acha que poderia sofrer um impeachment ?

– Empichemant não digo, mas, evidentemente, a gente até poderia perder o cargo. A primeira coisa que um presidente deve fazer, como eu, é cuidar do cargo, isto é, ser contra o paradismo. Para isso já providenciei a vinda de grandes conferencistas para falar ao povo.

– E quais seriam esses grandes nomes?

– Temos uma lista provisória, evidentemente. O povo tem direito de ouvir os grandes estadistas para evidenciar seus problemas. O povo tem direito de ser o povo, e seus problemas são de todos. O povo sabe o que querem.

– Mais alguma coisa a acrescentar?

– Sim! Evidentemente que deixo essa mensagem da presidência. Agradeço as oportunidade e vamos em frente, contra o paradismo.

– Desliga!

Era minha mulher que, parecendo dormir, escutava a baboseira.

– Clica essa mulher! Que coisa mais burra!

– Não clico sem antes buscar o dicionário. Quero saber o que significa paradismo, evidentemente!

Dá para aguentar?