Ela me perguntou: você lê muito?

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Uma leitora que se diz assídua dessa coluna, e a quem eu não conhecia, e nem ela, a mim pessoalmente, num desses encontros fortuitos que se dá entre autor e leitor, perguntou-me se eu lia muito.

Antes, ela se mostrava interessada em alargar seu conhecimento na área dos “predicados femininos” de que tratei numa crônica no passado. Disse-lhe que não entendia muito dessa matéria, não mais do que meus olhos alcançam. E ela, sabiamente, concluiu que eu devia ter lido sobre o assunto, o mistério que paira sobre a mulher.

É evidente que, para um cronista que se preza, a leitura faça parte de seus escritos, mesmo porque sem a leitura abrir-se-iam vazios imensos na própria vida do escritor, como se abrem lacunas enormes no conhecimento de todas as pessoas não dadas à leitura regular. Acontece que ler não é só abrir o livro, ver as linhas, saber distinguir o alfabeto, juntar as palavras, enfim, ir em frente sem tropeços, páginas e páginas. Ler é também desvendar o sentido, interpretá-lo, reconhecê-lo e aplicá-lo dentro dos outros sentidos que já estão armazenados no conhecimento do leitor. Um cronista, quando não está fazendo ficção pura, está aplicando novos sentidos a um sentido já existente, captado no mundo que o cerca. E só neste último sentido é que está havendo aprendizado de verdade, isto é, na aplicação de uma nova informação jogada no universo das informações anteriores, transformando-se em matéria original, mais nova e, talvez, mas consistente, ou não.

Claro que eu não falei isso tudo para a minha prezada leitora, interessada em saber se eu lia muito. Respondi-lhe a verdade: não leio hoje tanto como já li, nem sequer li todos os livros que estão na minha biblioteca. Parece-me que há um tempo da vida em que a leitura é o mais sábio recurso para o fortalecimento do saber, como me parece que há um tempo da vida em que o homem deve escolher o que ler, quer por dever profissional, quer por necessidade de preencher lacunas no conhecimento já adquirido. E parece-me também que quanto mais conhecimento se adquire, maiores lacunas do saber são percebidas. Tinha razão o filósofo grego que repetia: “eu só sei que nada sei”.

Hoje se sabe que a maioria dos alunos, tanto do ensino médio como do superior, têm enormes dificuldades para ler, já que ler não é, como dissemos antes, juntar as letras e, em seguida, as palavras. Há que se dar um sentido ao que se lê, aproximar as informações lidas com as que se tem no conhecimento anterior e aplicá-las no universo de nosso saber. Há ali três etapas muito claras: a leitura, a interpretação e o aproveitamento do que se leu.

No entanto, nada se resolve se o aluno não sabe ler. E a conta é remetida normalmente ao professor que, coitado, vê-se perdido entre como e o que fazer para que os alunos aprendam a ler.

Particularmente hoje, o professor está mesmo em maus lençóis. Como se não bastasse a incúria da educação como um todo, o professor ainda tem que enfrentar um inimigo poderoso que, além de não ensinar nada, muito menos a ler, faz com que o aluno desaprenda tudo que aprendeu, emburrecendo-o e tornando-o hostil a qualquer iniciativa que pretende fazer com que leia e aprenda a ler. Que inimigo é esse? A TV. E nem vou falar da Internet, a farra mais atual dos jovens, distanciando-o por definitivo da leitura.

E então a minha gentil leitora pergunta se eu leio muito? Já respondi que li muito e que hoje leio mais para preencher lacunas na bagagem que o tempo me deu através da leitura. Mas que não sei outro jeito para escrever bem, para dissertar, para falar, para integrar-se adequadamente no convívio social, para entender-se a si e ao mundo, para crescer infinitamente e até para amar, senão com a leitura. E quando me contam histórias de pessoas antigas que, sem escola alguma mais do que a soletração das palavras, eram tidas como verdadeiros gurus de toda a comunidade, sempre há uma resposta para tal: era um homem que lia, lia muito. E quando esse homem semianalfabeto de escola morre, todos dizem que ele era um sábio.

Pois está aí, terminando amanhã, a Feira do Livro de Santo Ângelo em sua 4ª edição. Toda voltada para levar o livro até a criança, para que desenvolva o gosto pela leitura. Aos adultos dados ao bom hábito de ler, essa foi uma boa oportunidade para crescer um pouco mais como ser humano, esse ser que pode ser mesmo um sábio somente com a universidade do livro em sua vida.