Eleições aquém e além do Itaquarinchim

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Amâncio é analfabeto. Ernestina é pós-graduada em Ciências Biológicas. Nas próximas eleições, ambos vão votar apertando com o dedo indicador as teclas da máquina eletrônica. Ela, talvez, com o dedo pai-de-todos, já que tem boas relações com o computador. Ou seria por pura elegância, uma delicadeza de gesto aquela sua mãozinha delicada. Ai, ai!

Mas ambos têm um problema em comum: não decidiram em quem votar para vereador. Ele, porque sabe contar até dois dígitos, invariavelmente atrapalhando-se na casa dos sessenta ou dos setenta. Como todos os vereadores têm cinco dígitos, cinco dígitos é muito número para Amâncio. Ela, a pós-graduada, padece um dilema mais sofisticado: acha as promessas dos vereadores repetitivas, sem criatividade, impossíveis de serem realizadas. Já leu tudo aquilo que está escrito atrás dos santinhos que misteriosamente aparecem no chão da sala, enfiados que são por debaixo da porta.

Pelo que se vê, Amâncio e Ernestina têm consciência da importância do voto, e nisso se nivelam. O homem não quer errar o número, mesmo que seja qualquer um. Sua consciência eleitoral não vai além disso, mas é uma consciência plena de responsabilidade e cidadania, nos seus limites. Já a mulher, que também não quer errar o número, só que deseja que o candidato por ele representado terá que preencher as expectativas da eleitora.

Aí é que está o busílis da questão. Talvez nem Ernestina e nem Amâncio saibam que quem conhece mesmo esses problemas é o candidato. Quem dos dois será mais facilmente convencido, captado e/ou ludibriado? Se a consciência de um não passa adiante da preocupação de não errar o milhar, e a da outra, além de acertar o milhar, acertar na autenticidade do candidato como o melhor para representá-la como parte integrante da comunidade que o está elegendo? Ah, sim, ainda a punge saber se seu candidato não estará metido em encrencas, assunto que só a Lei da Ficha Limpa poderia resolver.

Ora, ora, a resposta está na cara! Não é por nada que candidatos e mais candidatos derramam-se pelos bairros mais pobres, transitam por ruelas nunca dantes e nem nunca depois navegadas por eles, vasculham casebres com uma urna eletrônica de papelão debaixo do braço, e se desmancham em gentilezas nada comuns. Até a velha senhora sentadinha no seu canto recebe o carinho de uma palavra como “Vovó, como vai”?

Quando saem do bairro, triste ilusão, deixam um rastro de saúde, de educação, de moradia, de segurança, de calçamento, de emprego, de comida e, pasmem, de turismo.

– Se até a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, produz turismo, por que não aqui? Não é verdade? Se eu for eleito…

No entanto, lá no bairro de classe alta onde mora a Ernestina, o risco é bem maior para os candidatos. Há que mudar o discurso de promessas. Essas deverão ter outro nome: propostas ou projetos. Estes nomes são mais sutis, de maior impacto, devem conter atitudes que despertem o interesse de uma parede que se chama credibilidade. E isso é mais difícil que fazer um cristão decorar um número, mesmo que seja para Amâncio, o analfabeto. E isso explica, também, por que não há tanto candidato a vereador derramando blá-blá-blá nos bairros de classe alta.

Sim, pode ser que, além dessas dificuldades, o candidato se borra diante da possibilidade de que ali, nos meandros da classe mais esclarecida, dê com a cara no resultado de uma pesquisa tirada de um site da Lei da Ficha Limpa. Li num jornal da cidade, meses atrás, que essa lei estava deixando muitos pretensos candidatos ao cargo de vereador “de cabelo em pé”. E que, por medo de perder a boca pública, já pensavam em “alternativas”.

E sabem que alternativas são apontadas como possíveis? Uma delas era “inscrever a esposa como candidata ou até mesmo algum ‘laranja’ para concorrer ao pleito”. Ora, ora, como se isso fosse possível, isto é, transferir seu vasto conhecimento do assunto, sua bela imagem pública, sua invejável história político-social para outrem, mesmo que seja a mulher. No fundo, no fundo mesmo, não tendo cacife nenhum, o que interessa é a tal “boquinha” que o cargo lhe daria.

Na verdade, não sei se adianta aquele investimento em propaganda da Lei da Ficha Limpa que se vê e ouve na TV. Lá diz que é para pesquisar a história do candidato a quem pretendemos dar o voto. Como? Onde? A quantas pessoas são dados instrumentos para tal pesquisa? Na periferia das cidades ou nos nichos de esclarecidos? Talvez nesses, mas…