Emagrecer mastigando

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Já vivenciamos o novo século, o novo milênio, as novas esperanças, o novo escambau. Mas embora tudo seja novo, trazemos as velhas manias do século passado, queiramos ou não. E uma das manias é a do emagrecimento geral. As receitas para esse baixar de banhas são variadamente múltiplas, paradoxais, exageradamente milagrosas, invariavelmente inúteis.

Uma delas, elaborada exclusivamente para mim, que não sou gordo coisíssima alguma, deu-me essa matéria pra lá de ridícula. Não vou expô-la detalhadamente; seria falta de ética e proporcionaria cópias para outros que, obesos, tentariam a salvação das graxas espalhadas pela barriga, ancas, peitos e bumbuns. Apenas libero que a dieta era composta de seis refeições e que o peso geral de todas elas reunidas num só prato mal chegariam a um quilo, sem levar em conta que me tomariam três preciosas horas do dia, fora os exercícios físicos que roubariam mais uma hora. Aviso ainda que todas as refeições tinham nome: desjejum, colação, almoço, lanche, jantar e ceia. Nunca entendi o que era colação e nem a diferença entre jantar e ceia.

Mas, como bom menino, busquei informações complementares como o que significava “mastigar bem os alimentos” e outras. Não me interessei saber o que era hipolipídica ou hipopurina. Sabia bem o que queria dizer evitar doces, frituras, carne gorda, bebida alcoólica. Precisava mesmo era saber como “mastigar bem”.

Pois foi um mano meu que, ligado nestas coisas de comidas naturais, chás de ervas, banhos de raízes (coisa de índio), trouxe-me a informação precisa: 62 mastigadas. Assim, pronto para o sacrifício, iniciei com o primeiro alimento sólido da lista: uma fatia de pão. A cada pedaço, 62 dentadas. Resultado: no final da trigésima mastigada tinha na boca água pura, uma vez que o pão havia sumido não sei onde. O difícil era continuar mastigando a saliva até atingir o número ideal de mastigação.

Havia frutas no cardápio. Na geladeira, uma tentadora fatia de melancia me olhava louca de frio. Fui nela, e vá mastigar. Era de tal forma inadequada a melancia para 62 mastigadas que me perdia na contagem ao meio já que o sabor tinha se ido muito antes. A laranja virava num azedume de dar ânsias de vômito. A pêra e o melão quase iguais à melancia. A uva, crek, crek, crek na semente. A maçã argentina virava farinha. O mamão tomava o cheiro parecido com cocô de gato doente; não engolia. Dava para continuar? Dava.

Um problema insolúvel era o ovo. Como odeio ovo cozido, fritava-o na água, atitude que aprendi num momento de aperto de banha ou azeite. Ainda bem que não podia passar de três ovos por semana. Salvava-me o feijão e arroz, embora fosse permitido um punhadinho tão pequeno que, mastigados nos conformes, desapareciam numa mistura equivalente a qualquer coisa menos feijão e arroz.

Havia também cereal integral que vinha em saquinhos coloridos, sequinhos, durinhos, soltinhos de tal maneira que, na boca, enfiavam-se nos dentes, ao lado da língua, quando não me engasgavam. E meta água goela abaixo. Queijo magro, sim, mas esse não tem gosto de nada. Coalhada? É coisa para terneiro desmamado ou porquinho abandonado.

Nem vou falar do martírio de acompanhar amigos em refeições supimpas, churrascadas com ponta-de-peito florescente de granito, picanhas amarelas de gordura, cervejas mortas de frio, refrigerantes beliscando a sede. Não; suco com adoçantes que tiram o gosto de qualquer fruta e de viver. Podia comer carne, sim, mas magra, tão magra que a vaca, se viva fosse, mal podia se colocar em pé.

No final da segunda semana, as consequências já se mostravam evidentes: uma dor nas mandíbulas, dentes em pandarecos e gases nos intestinos. Para solucionar o problema, dei-me por magro o suficiente, encerrando a dieta e voltando ao mundo real que meu organismo aceitava. Se a dieta não me tornou um modelo, deixou-me perito em deglutição de alimentos, já que devo ter aprendido a mastigar melhor tudo o que se põe na boca, até iogurte, credo!

O pior, e que me deixa sempre curioso, é não saber se o mano que me orientou sobre o número de mastigadas estava brincando ou se falava somente de bocados de carne de vaca velha. Nunca quis pergunta-lhe a verdade para continuar acreditando na palavra de irmão.

(Publicado outra vez a pedido de um leitor que se diz obeso por morbidade alimentar)