EROTISMO E PORNOGRAFIA

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Uma das perguntas, recorrente nos meus tempos de professor de Literatura, foi aquela que pedia respostas sobre a diferença entre erotismo e pornografia. Há pouco, outra vez me vi diante da mesma questão quando me indagaram sobre a diferença de um texto erótico e um texto pornográfico.

Certamente que haverá leitores que não concordarão com o que eu vejo como erotismo e o que eu defino como pornografia. E nem poderia ser diferente porque não se trata de buscar um conceito universal, pronto e definitivo. A perseguição a um conceito de erotismo e pornografia é tão antiga quanto flexível por duas razões fundamentais: a primeira é da natureza humana, seus instintos físicos conduzidos pelo desejo; a segunda, o comportamento do homem diante das leis, das regras de conduta, das tradições, dos costumes, da religião, da época, enfim, da cultura de cada povo. Ora, a natureza humana não é diferente de homem para homem, seja ele de onde for e da época em que existiu. Mas a segunda razão, o comportamento do homem diante de sua cultura é diferente, inconstante, maleável, e isso torna impossível uma conceituação universal e permanente do que é pornográfico ou erótico.

Mudam as regras e leis que determinam o comportamento humano diante do sexo (o beijo em público, ontem, era um Deus nos acuda e, dependendo dos pais da moça, o casamento era obrigatório; um beijo na boca, entre homossexuais, dava morte na certa), mas nunca desapareceu o interesse pelo que é erótico e pornográfico. Assim, o que temos que ver é por que esse interesse não desaparece.
Uma das respostas, que me parece óbvia, é que, não mudando nunca os instintos físicos (animalescos) ligados ao desejo (sexo) do homem, são as regras de como conduzir as manifestações desses instintos que mudam. Mas mudam apenas de face. Sabe-se que o que hoje é aceito como erótico, em passado recente era tido como pornográfico, e vice-versa. Dependemos das mudanças culturais, do acesso a novos conhecimentos e informações, da interpretação dessas informações, da aceitação consensual de novos comportamentos do homem e novos valores sociais. Em suma, caem algumas barreiras mas erguem-se outras. E a briga para conceituar erotismo e pornografia continua igual.

No entanto, em todos os tempos sempre houve uma mesma distinção entre erótico e pornografia. Erotismo está ligado ao instinto natural (o mesmo da pornografia), mas no seu lado mais espontâneo, insinuante, aberto para a fantasia, para a emoção, empatia, ternura e arte. Está ligado à mente, ao espírito, é mais duradouro, cuja excitação leva ao inefável, a momentos de raríssimo prazer sexual. O tesão “pode” materializar-se no contato físico. Já a pornografia dispensa a espontaneidade, a insinuação, é curto e grosso, dedica-se ao detalhe do ato sexual, às opções oferecidas pelo corpo todo incluindo aberrações, vê todas as mulheres e homens como objetos de prazer sexual, banalizando as relações. A excitação é meramente genital e o tesão materializa-se sempre.

Ora, essas diferenças não se apresentam apenas em imagens de filmes, peças de teatro, revistas, quadros, esculturas, desenhos animados ou outro modo que apresente o sexo via as artes ditas visuais. O texto escrito também pode perfeitamente, e muito perfeitamente, colocar o leitor frente ao erotismo clássico ou à pornografia escancarada. Depende dos recursos com que cada arte dispõe as imagens ou as palavras. No caso do texto escrito, a presença de palavras de baixo calão, chulas, grosseiras, e termos ligados ao sexo, à genitália, ao próprio corpo e ao ato sexual tidos como gírias ou de uso restrito na bandalheira e na devassidão, o detalhismo descritivo, tudo é indicativo certo que o texto é pornográfico. Eu acrescentaria ainda, como característica do texto pornográfico, a presença de erros ortográficos ou de estrutura da linguagem. O texto pornográfico é quase sempre um texto pobre. É isso, um texto pobre, até porque é muito mais fácil escrever pornografia do que erotismo. A diferença, aí, é abissal. Na Internet, a esse tipo de texto chamam de “lixo literário”.