ESSES NÃO VÃO PARA O INFERNO

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Esse mundo velho é mesmo admirável! Ia eu lá pelos meus 14 anos de idade (e olha que isso deve ter sido lá pelo ano de 1953, uma barbaridade), quando, de férias do meu internato seminarístico, fui abordado por um senhor, me parece ex-quase-padre. Um ex-quase-padre, naquela época, era uma sumidade em conhecimentos, os mais diversos. Respeitado, impoluto aos olhos de todos, aconselhador e muito católico-apostólico-romano. Chamou-me de lado para uma conversinha e, sem mais nem menos, perguntou-me se fazer uma “compensatio oculta” era pecado.

Ora, ora, eu era bom no latim e, na lata traduzi “compensatio oculta”:

– Compensação oculta, é isso?

– É. Você sabe se isso é pecado?

Na minha vasta relação de pecados veniais e capitais, além de outros inomináveis, não havia nenhum com o nome de “compensatio oculta”. E fui franco: enrolei, enrolei, disse e desdisse até que ele entendeu que eu não sabia o que era mesmo essa tal de “compensatio oculta”. Então ele falou de seu drama de consciência, que o angustiava cada vez que ia comungar, que temia o castigo do inferno, que precisava contar para alguém aquilo que os padres, no colégio, lhe disseram que não era pecado, mas que, agora, em pleno exercício do tal pecado, tinha dúvidas terríveis.

Contou-me, então, que ele era uma espécie de diretor financeiro da empresa onde trabalhava e que, a cada semana, ou quando podia, metia no bolso um pouco de dinheiro que não era seu. E que fazia isso para compensar o seu salário, o qual achava muito pouco pelos relevantes serviços prestados. Em outras palavras, roubando um pouco de cada vez compensava, ocultamente, o soldo mensal.
Não me lembro de que maneira terminou nossa conversa e nem sei se aposentou naquela firma (ou foi aposentado?). Sei que aquele caso ficou martelando na minha cabeça por muito tempo, mais de meio século. Mais tarde fiquei sabendo que “compensatio oculta”, no Direito Canônico da Idade Média, era fazer exatamente o que aquele senhor fazia, isto é, apoderava-se de valores da firma para compensar o que achava ser seu trabalho mal remunerado. E tudo ficava bem perante a lei de Deus, tudo era legitimado. Ninguém ia para o inferno porque praticava a “compensatio oculta”. Nem ele que meteu a mão no dinheiro alheio por muitos anos.

Pois agora, lembrando dessa lei canônica (será que ainda vige?), dou-me conta do que está acontecendo com aqueles homens da elite política e social que botam a mão no dinheiro público, deslavadamente, abundantemente, engordando até a terceira geração de sua prole, impunemente. É que está sacramentado: praticar “compensatio oculta” é uma atitude legítima de quem, como vereador, prefeito, deputado, ministro, bancário, empresário et caterva, dá cada minuto de seu tempo, cada centímetro de sua sabedoria, cada metro de seus voos internacionais em prol do povo e de seu país. Sua vida, a coisa mais preciosa do homem, está a cada segundo exposta a riscos pelo povo, para o povo, ao povo, com o povo, do povo, desde o povo, no povo. E, claro, para isso, não há dinheiro que pague. Então, haja “compensatio oculta” nos cofres do estado via desvios de verbas, mensalão, mensalinho, ONGs, propinas, sonegação, fraudes, tráfico de poder, contas bancárias em nome de “laranjas”, contas no exterior e miles de outras compensações pelo denodado espírito público desses homens que fazem e constroem o Brasil.

Pois então, está claro: a impunidade é filha amada da “compensatio oculta”. Ninguém é condenado pelas “pequenas” ilegalidades e “reles” desvios feitos à sombra da compensação. Nós, pobres mortais, é que não entendemos nada de leis que preservam os grandes ladrões. Esses, meus caros leitores, não vão para o inferno.