Eu sempre impliquei com as letras: as más letras

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Não sei se o fato de exercer a profissão de professor nas áreas das letras tem influenciado num meu comportamento chato, para os outros: desagrada-me receber e-mails que, francamente, desrespeitam tudo o que passa perto da boa educação, da correção da linguagem, da clareza, das boas maneiras, da civilidade e até da amizade. Falo do modo como alguns redigem o e-mail. Vejam esse exemplo que recebi há algum tempo, a partir do assunto:

– Assunto: sem assunto.
V sabe oq aconteceu c Joao diz que morreu n tenho cert v vem p o FP c mulher hotel t reserva

Eu não sabia de que João se tratava. Recorri a todos os Joões que eu conhecia e não encontrei nenhum morto. Depois, entendi que me preguntava se eu ia para o FP com mulher. Ora, que FP era esse que eu não sabia? E que mulher devia levar, senão a minha? Que havia reserva nalgum hotel, entendi, porque não sou burro nem nada.

Claro que dá para entender, mas convenhamos. Será que há ali economia de palavras, de letras, de tempo, talvez? Ou será que a internet deixa as pessoas tão estressadas que não sabem mais desatar o nó do pensamento e colocá-lo no teclado com a clareza do dia?

Um outro e-mail que recebi só tinha o assunto, assim:

– Assunto: tenho dois livros ótimos.

E nada mais. Podia, pelo menos, esclarecer de que livros se tratava e por que razões poderiam me interessar?

Na verdade, a tecnologia do e-mail tanto pode emburrar uma pessoa como torná-la sábia, já que, como li algures, a tecnologia não tem alma, não tem valores e não tem moral, não tem coerência e nem é honesta. Tanto pode ser oportuna como inoportuna, tanto pode estressar como desestressar, tanto pode inspirar respeito como nojo e raiva. Basta que do lado de lá, quem envia um e-mail, talvez se achando encoberto pela situação de distanciamento ou pelo sentimento de impunidade que o ato solitário diante do teclado inspira, abra seu leque de bobagens, de preguiça mental e de burrice. São assim os e-mails que são enviados em pencas trazendo desde textos de autoajuda com temas musicais que só depressivos apreciam, como mensagens e correntes de rezas que não podem ser quebradas sob pena do inferno em vida, ou ainda piadas mais velhas do que andar de pé.

Um exemplo de e-mail que qualifico como um atestado de que o emissor não se garante é aquele que traz uma sequência de letras que querem traduzir riso ou sorriso ou gargalhada. Ora, se quem escreve algo que acha engraçado e que deve provocar a mesma reação no leitor, não precisa colocar ali coisas como rs rs rs rs rs, ou he he he he he, ou kuá, kuá, kuá. A impressão que eu tenho é que quem mandou esse tipo de e-mail pensa que quem vai lê-lo é tão idiota que não vai entender o recado engraçado. Ou então, não se garante com o que escreve e quer dar um ajuda a si mesmo, tipo “ria, por favor”.

Fui vítima de uma má interpretação de um e-mail que mandei para uma amiga do Paraná, professora, ex-colega, aposentada. Não sei como descobriu meu endereço eletrônico e, depois de trocarmos notícias comuns tais como o que estou fazendo, livros que escrevi, filhos, informações do cotidiano que temos o prazer de trocar com amigos. Acho que, por ter esgotado esse assunto, sem mais nem menos colocou meu endereço junto a um grupo de contato e iniciou o envio diário de três, quatro, dez e-mails com todo o tipo de mensagem, as mais ingênuas, as mais repetitivas, as mas rotineiras, todas absolutamente sem o mínimo interesse meu.

Então, com toda a delicadeza, com o maior esmero em dizer que não se ofendesse, pedi que tirasse o meu nome do grupo a quem ela enviava todas aquelas mensagens. Expliquei que não dispunha de tempo para tantas leituras, que minha internet era lenta, que a caixa de mensagens vivia lotada, mas que não perdesse meu endereço para continuarmos nos comunicando de quando em quando, conforme nossa amizade exigisse.

O que aconteceu? Ofendeu-se, respondendo-me que não imaginava que eu fosse tão ocupado a ponto de querer ignorá-la. E não mais disse, e não mais se comunicou comigo, e não mais existe, eu acho.

Vejam, nem a sinceridade, nem a delicadeza, nem a preocupação com uma amizade antiga servem para transitarem pela tecnologia. Esta não tem alma, mesmo!