Identidade missioneira

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Há tempos venho instigando cabeças para que me respondam o que é Identidade Missioneira. Vejo estampados em camisetas, bonés, banners, adesivos frases como “Orgulho Missioneiro”, “Eu sou missioneiro”, “Orgulho de ser missioneiro” e outras que, genericamente, se traduzem por uma certa identidade, a Identidade Missioneira.

Desses dísticos, o único ao qual tenho restrição é o “Orgulho Missioneiro”. Não sei por que, mas soa-me parecido com tantos outros “Orgulhos” que transitam por aí, uns muito sérios e assumidos, outros de gozação, mas todos manifestações de identidades sociais: Orgulho Gaúcho, Orgulho Carioca, Orgulho Mineiro, Orgulho Gay, Orgulho Hétero e, até um Orgulho Carnívoro, esse enaltecendo quem gosta de carne vermelha e não tem pena do sofrimento animal, contrapondo-se a Orgulho Vegetariano, que manda para os infernos os que comem carne de animais.

Acrescento, ainda, Orgulho Gordo, dos obesos que se acham os bem mais saudáveis entre os humanos.

Não me incomoda tantos e quantos “Orgulhos” existam. Para todos há uma bandeira que, umas mais, outras, menos, significam alguma coisa para o grupo que adere. O que me incomoda é a cópia. Não seremos, os missioneiros, capazes de criar um slogan tão expressivo e de alcance tão vasto quanto a história missioneira merece? As Missões não foram resultado de uma experiência civilizatória sui generis? Pois sui generis deveria ser o slogan para indicar quem é missioneiro, e não simplesmente repetir o que os outros inventaram.
Creio que a primeira questão a ser proposta numa discussão sobre Identidade Missioneira é saber exatamente o que é identidade. Sei que os conceitos são diversos, de acordo com o espaço, ideias, tradições, ideais, significados, referências, caracteres, influências e quejandos, com o que um grupo humano, ou não, exerce uma interação social. E isso, queiram ou não, é complicado e exige um esforço de definições que somente estudos profundos podem avaliar.

O que se pode ver por aí são declarações de missioneiridade de toda ordem: traje missioneiro, música missioneira, poesia missioneira, contos missioneiros, lendas missioneiras, costume missioneiro, bailes missioneiros, jornal missioneiro, estilo missioneiro, região missioneira, conceito missioneiro, coral missioneiro e, se der asas à busca de missioneiridade, a lista vai se alongar.

É recente e sintomático o que ocorreu com um evento musical que tinha por nome Festival de Música Missioneira, aqui de Santo Ângelo mesmo. Lembro que os grupos que se apresentaram, invariavelmente executavam números musicais ao gosto do que se chama Música Gauchesca. Os componentes dos grupos, também invariavelmente, vestiam trajes que são os mesmos que a tradição gauchesca aceita como próprios do gaúcho. Havia uma exceção, sim, do Grupo Terra Viva, se me não engano, que desafiou a todos os outros com trajes copiados das vestes dos índios das Missões, além de ritmos e instrumentos musicais usados dentro das Reduções. Foram premiados? Que me recorde, não.

Mas, quem sabe, a Identidade Missioneira é a mesma Identidade Gaúcha, e Orgulho Missioneiro é o mesmo que Orgulho Gaúcho. Isso é inaceitável. Algumas raízes podem se cruzar, mas a seiva dos brotos é outra para cada um.

Ou, então, tudo se simplifica num conceito extremamente ingênuo: missioneiro é quem nasceu ou mora na Região das Missões. Mas a Região das Missões é a mesma coisa que Região Missioneira? Perguntem a Passo Fundo se eles não pertencem à Região Missioneira e, portanto, são missioneiros? A Carazinho, a Salto do Jacuí, a Vacaria, e assim para quase metade do Rio Grande do Sul?

O que falta, talvez, sejam definições. E somente um debate, amplo e profundo, poderá responder ao que intriga, não somente a mim, mas a tantas e tantas cabeças pensantes. Afinal, como se conceitua a Identidade Missioneira.