Instituto Federal Farroupilha – o nosso Ifet

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Desde as primeiras notícias da possibilidade da implantação de um Instituto Federal de Educação Tecnológica em Santo Ângelo, vem-me à memória a implantação da antiga Escola Técnica Getúlio Vargas lá na década de 60. Fui professor lá, tendo como diretor o professor Milton Souza e, como colegas de magistério, além de alguns que não eram professores profissionais, muitos outros vindos de longe, de outros estados, para suprir uma necessidade básica: professores qualificados para os cursos técnicos oferecidos. Pelo que me parecia, a escola foi posta em funcionamento sem a preocupação de saber se a cidade, a região e o estado teriam professores qualificados para preencher todo o quadro docente para os cursos profissionalizantes oferecidos. Na verdade, nem para as disciplinas da área de ciências humanas, como chamavam, não havia professores oriundos de Cursos de Licenciatura. Por razões como essa, havia professores que apenas exerciam a docências por diletantismo, com muito esforço e coragem. Havia heróis naquela escola!

Passado tanto tempo, e ruminando aquela passagem pela Escola Técnica Getúlio Vargas, fico apreensivo quanto à possibilidade de ocorrer fenômeno semelhante em relação à implantação do Instituto Federal. É claro que minha apreensão não tem nem razão de existir, pois os tempos são outros, as cabeças são melhores, a gestão é diferente. Começa pela dependência ao Instituto Federal Farroupilha, sediado em Santa Maria, já com larga experiência na ramificação das atividades em seus campus no Rio Grande do Sul.

Por isso, se professores haverá suficientes, como deverá ser um bom professor em uma Escola Técnica? Diferente de um professor de cursos científicos, clássicos ou de formação de professores? Na verdade, em qualquer escola deve haver preocupação com a qualidade de ensino. No caso de uma Escola Técnica, há um agravante que é a preocupação com a preparação do aluno para o mercado de trabalho e, concomitantemente, preparação do mesmo adolescente para a vida.

É nesse entroncamento que reside a enorme responsabilidade do professor de ensino técnico. Normalmente, este professor acaba desenvolvendo o programa conteudístico que, de certa forma, deixa de lado a possibilidade do aluno manifestar-se como um ser que tem outras necessidades que não as da aprendizagem pura e seca de um conteúdo técnico. A exigência de habilidades e conhecimentos que possam formar um técnico em alguma profissão a partir de um adolescente em transição para uma fase adulta terá que lembrar sempre que a formação do técnico não pode se dar sem a formação do cidadão.

Por fim, ouvi ou li algures que é uma preocupação do Cpers que uma Escola Técnica acabe por servir aos interesses das indústrias, por formar apenas mão de obra barata. Não creio que seja assim. Se o professor souber que não deve dar ao aluno um conteúdo que deva lhe durar a vida inteira, mas ampliar-lhe as possibilidades de outras aprendizagens, estará formando um técnico que saberá defender-se diante das surpresas que a vida lhe aprontará. Ninguém pode dizer que um técnico formado em determinado curso fará carreira só nessa profissão. Os empregos de hoje serão os mesmos de um futuro próximo? E o que fará um indivíduo que só tem o conhecimento de sua habilitação quando essa habilitação não será mais exigida para nada?

A educação é um investimento que se faz para toda a vida. O conhecimento técnico, não. Um professor de ensino técnico que ministra suas aulas implementando essa diferença na aprendizagem do aluno, esse será um bom professor, e tais alunos não servirão para mão de obra barata para ninguém.