Lenda da cobra grande

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Foi depois da guerra guaranítica, muito depois. As Missões estavam abandonadas. Os padres foram embora, os homens morreram lutando, outros fugiram para o fundo dos matos. Ficaram só as mulheres e as crianças. As casas dos índios iam apodrecendo, caindo os telhados, que as mulheres não sabiam recuperar; as roças foram tomadas pelo inço, que as mulheres não podiam limpar; o gado fugia pelas cercas caídas, que as mulheres não conseguiam levantar.

E o mato foi se chegando, se chegando, se chegando para a beira do povoado de São Miguel Arcanjo. Junto com ele, os animais selvagens que afugentavam as mulheres e as crianças. Então elas iam para outra casa reunindo-se com vizinhos. Mas o mato foi avançando mais, mais, mais, penetrando em todas as ruas e as casas, chegando na praça. Então as mulheres e crianças que restavam mudaram-se para dentro da igreja de São Miguel, enorme e vazia.

Do interior da igreja ouviram os berros da última vaquinha que os tigres, lá fora, mataram numa noite de vento.

E o tempo passou. E o mato avançou mais ainda, lambeu as paredes do templo, penetrou nas portas e janelas abertas da torre e tomou toda a frente da igreja. Nas escuras e tristes noites de vento as índias ouviam os gritos e rugidos dos animais que tentavam penetrar na igreja. Então tremiam de medo. Então rezavam muito.
Numa noite, chegou a Cobra Grande. Ela veio com o mato, rodeou a igreja, subiu na torre e lá se aninhou. Seus silvos traziam horror às índias e crianças amedrontadas.

Em certa noite, os velhos sinos começaram a tocar. Tocaram, tocaram, tocaram a noite inteira, toda a manhã e todo o dia. As badaladas foram crescendo, crescendo dentro da cabeça das índias, e as crianças choravam. E o sino não parava. Cinco sinos, dias e dias a tocar enlouqueceram as pobres mulheres.

Então uma delas percebeu que a Cobra Grande é quem tocava os sinos, e que tocava porque tinha fome. Mas nada havia para saciar a fome do terrível animal. Transtornadas, as índias resolveram dar uma criança para alimentar a Cobra Grande. Esta comeu o pequeno índio, e os sinos pararam. Mas, no outro dia, a fome do animal voltou e, novamente, os sinos começaram a tocar. E mais uma criança foi dada a ela. Assim foi até que não havia mais crianças.
No desespero, a mulheres rezavam sem cessar pedindo a Deus que ajudasse a afastar a Cobra Grande. Então, uma tormenta caiu sobre São Miguel e a Cobra Grande botou a cabeça para fora das janela da torre para espiar, quando um raio caiu sobre ela, penetrando na torre, arrancando pedras e abrindo o enorme animal pelo meio. O fogo do raio derreteu a graxa preta da gorda Cobra. Essa graxa veio se derramando pelas paredes da torre, penetrando nas frestas e descendo as escadarias até o chão.

Dizem que essa graxa ainda é encontrada naquele local, marcando a presença da Cobra Grande e a intervenção de Deus atendendo às preces das índias missioneiras.