Lendas missioneiras (Parte 1)

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Lendas, um tema que sempre suscita interesse. Elas povoam o imaginário dos homens desde o berço, quando os bichos-papões e os homens-do-saco cruzam a infância e só se desalojam da cabeça na adolescência. Se bem que, nessa idade, tomam lugar no imaginário outros vultos como o lobisomem e os vampiros.

Todos os povos têm suas lendas. Elas fazem parte da tradição de cada povo e traduzem, em última análise, sua cultura. E, em que pesem as diferenças raciais ou geográficas, a lenda não difere, em sua conceituação, aqui ou acolá. É sempre uma pequena narrativa de origem histórica, religiosa, humana, animal, seres inanimados, fenômenos naturais, marcos geográficos ou episódios localizados que, sob o efeito do imaginário popular ou da emoção poética ganham foros do maravilhoso encantatório quase sempre através da tradição ou da crendice popular.

A nós, da região das Missões, interessam as lendas missioneiras, essas que vêm sendo registradas desde Simões Lopes Neto (Lendas do Sul) e recolhidas, outras, depois, por Antônio Augusto Fagundes, só para citar um estudioso vastamente conhecido.

Lendas missioneiras seriam aquelas que trazem em si figurações, paisagens, hábitos e costumes, tradições, tipo humano, crenças, circunstâncias e religiosidades encontradas especificamente na região dos antigos povos das Missões Jesuíticas da Província do Paraguai, que abarcava territórios hoje da Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Principalmente na Argentina e no Paraguai, as lendas que têm origem nas Missões Jesuíticas são numerosas, muito significativas, e bastante divulgadas por autores desses países.

No Rio Grande do Sul, a lista de lendas missioneiras também não é pequena. O historiador Aurélio Porto registrou um momento em que as histórias fantásticas do imaginário missioneiro eram transmitidas da forma tradicional, a oralidade. Ele conta:

– “Na velha aldeia de São Nicolau, junto à terra natal, ao cair das tardes, de um rancho solitário, que se esboroava, subiam sons harmoniosos e doces de uma rabeca, como se fossem de um órgão longínquo vibrando músicas religiosas. Era o velho João Rabequista, índio centenário das Missões que tocava ainda, e nos contava as lendas missioneiras de santos milagrosos e de virgens santas que velavam os nossos sonhos e acariciavam, à noite, os nossos cabelos…” (Aurélio Porto – História das Missões Orientais do Uruguai, página 206, Volume I, Livraria Selbach, Porto Alegre, 1952).

Esse é o momento supremo da lenda que, como a conhecida história do Lunar do Sepé, ou A Lenda de Sepé Tiaraju, é transmitida de geração em geração pelo canto, pela trova, pela narrativa ao pé do fogo de chão dos galpões de estância, ou dos ranchos perdidos nos fundos dos campos missioneiros. E assim elas sobrevivem, rebrotam, florescem às vezes com tintas um pouco diferentes, mas sempre cheias de mistério e colorido próprio.

Uma amostragem breve de lendas missioneiras servirá para ilustrar essa página da cultura das Missões. São lendas muito próximas da cultura local e, às vezes, desconhecidas.

* O lunar de Sepé – Lenda do Cruzeiro do Sul (variação e O lunar de Sepé e Lenda de São Sepé)

* M’boiguaçu (Lenda da cobra grande)

* A casa de M’bororé

* Rio das Lágrimas

* Lenda de Tupanciretã

* Angüera (Generoso)

* A lenda dos Zaoris

* A lenda do serrote

* A lenda do galo de ouro

* A lenda da corrente

* A lenda do Itaquarinchim

* A lenda dos túneis jesuíticos

(Continua no próximo sábado)