Lendas Missioneiras Parte 5

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A LENDA DO GALO DE OURO

Transcrição de Mário Simon

(Essa lenda era narrada mais ou menos assim pelo antigo e primeiro zelador do Museu das Missões, de São Miguel, senhor Hugo Machado. Perguntando a ele se havia visto um tal “galo de ouro” no cimo da torre da igreja da redução de São Miguel, respondia com essa estória.)

– Não. Nunca vi. O que contavam sobre esse galo no alto da torre era que, no tempo que os jesuítas foram expulsos, na pressa eles escondiam tudo o que era de ouro, como cálices, candelabros, coisas de igreja, e moedas de ouro. Usavam enterrar em lugares marcados. Mas o “galo de ouro”, que era enorme, este eles esconderam dentro de um túnel que havia ali no lado direito das ruínas, nos fundos. Muito tempo depois, quando já não existiam mais índios por aqui, e tudo estava caindo, as casas, as oficinas e a igreja, começou a aparecer gente procurando ouro, abrindo buracos em todos os lados. Então descobriram o túnel e desconfiaram que ali estaria um grande tesouro.

Limparam o local, tiraram as pedras que fechavam o túnel e foram entrando até sumirem da vista. Lá dentro, dizem, encontraram o enorme “galo de ouro”, tanto cobiçado. E já vinham trazendo para fora aquele tesouro quando as paredes do túnel começaram a ruir. Na correria, tiveram que largar tudo, menos o “galo de ouro” que dois homens vinham carregando. Estes ficaram para trás e não tiveram tempo de sair, pois desandou tudo, fechando para sempre o túnel, enterrando o tesouro e, com ele, os dois homens.

Os que escaparam, voltaram para o lugar onde estava o túnel no dia seguinte e, por mais que procurassem o local, não o encontraram mais. Parecia que tudo estava no lugar como sempre esteve e, assim, o “galo de ouro” jamais foi encontrado.

LENDA DA FERRADURA

Coletada por Mário Simon

No tempo da Guerra Guaranítica, os índios da redução de Santo Ângelo Custódio receberam a notícia de que os inimigos se aproximavam do povoado.

Um cacique chamado Cabari, preparando-se para a guerra, quis mudar as velhas ferraduras de seu cavalo, mas na não havia mais ferro. Cabari pensou por instantes e resolveu fazer as ferraduras de pedra.

Desceu até o vale do rio Ijuí-guassu e mergulhou nele três vezes, até encontrar a pedra de que precisava.

Voltando à aldeia, viu as índias carregando na cabeça enormes potes de argila com água que apanhavam no rio Ijuí-guassu. Ficou com pena delas e também da redução de Santo Ângelo, um povoado tão bonito, mas com água tão distante. Naquele mesmo momento, desejou fortemente que existisse um rio ali bem perto das casas.

Quando a guerra chegou nos limites da redução, Cabari lutou como ninguém, montado em seu cavalo de patas de pedra. Ferido mortalmente no peito, às portas da aldeia, a última paisagem que o índio viu foi a curva do rio Ijuí-guassu lá embaixo, no vale. Então, antes que a morte lhe roubasse a luz, desejou ardentemente um rio mais próximo de seu povoado.

Morto Cabari, seu fogoso cavalo começou a subir, subir, indo cada vez mais para o alto, carregando em seu lombo o valente índio. De repente, uma das ferraduras de pedra desprendeu-se e caiu, afundando em curva o solo em torno da aldeia. Do sulco, brotou água abundante e límpida que passou a correr formando um belo arroio.

Dizem que é por isso que o leito do rio Itaquarinchim é todo de pedra e tem o formato de uma ferradura em derredor do coração de Santo Ângelo.