Maneiras de perder freguês

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Agora que estão chegando os dias que precedem o Natal e o fim do ano, as lojas sabem que a propaganda é, ainda, a alma do negócio. Será? Acho que nem todos pensam assim. Eu, por exemplo, tenho aversão aos preços que acabam em 99. Valores que chegam a ser ridículos como R$ 99,99. Será que está faltando aquilo que chamam de “desconfiador”? Ora bolas, uma camisa por 49,99? Será que ninguém percebe que isso aí é 50,00? Um centavo? Bem, deixemos pra lá os 99. Há outras 99 maneiras de perde freguês. Vejam essa.

– Mamãe, preciso de um tênis novo e essa calça não me serve mais. Olha só, pareço um salame aqui dentro!

A mãe arrepia o pelo pois que seu primeiro pensamento é a carteira do papai. Sabe-a minguada que nem cusco de tapera. À noite, consulta o marido, na cama, já que é ali o lugar onde as brigas terminam.

– Não tem outro jeito! Pesquisa os preços e vamos comprar.

Nas ruas, maravilhada a mãe lê em cartazes coloridos os descontos que a tentam. Aquela vitrine anuncia 20% de desconto e em três vezes; essa, 50% de desconto à vista ou no cartão; aqueloutra, 60%. Outras mais, tudo em cinco vezes sem juros. Uma beleza!

Beleza umas ova! Em plena era do real, tem muita loja que não caiu na real. Como é que se pode entender que, numa economia com a inflação baixa alguém possa oferecer mercadorias com um desconto de 60%? Quanto esse empresário havia colocado de acréscimo nos produtos como lucro justificável? Sim, porque de graça ninguém vai vender nada. Tem que haver mutreta aí.

O mundo de descontos que aparecem estampados em letras bem claras é, no mínimo, desconfiável. No caso de compras a prestações, o que vai embutido nelas, de juros, cliente nunca saberá. É muito tentador adquirir uma TV, por exemplo, por R$ 22,00 mensais. Ou um par de sapatos por R$ 5,00 por mês. Para quem não sabe fazer as contas dos juros – e a maioria dos consumidores não o sabe –, as prestações afiguram-se compatíveis com seus recursos, e realmente o são, na medida que não há outras opções para a compra tão adequadas ao seu orçamento. Assim, a mordida não dói, porque é uma ferida que se abre aos poucos.

Pior ainda é a malandragem que corre solta no comércio que oferece descontos de até 15% em todos seus produtos. Está lá estampado nos cartazes e, às vezes, nos jornais. Pois vamos aproveitar esses anúncios.

– Meu filho, vai até a farmácia tal e me compra esse remédio.

A tal farmácia foi indicada pelo pai porque ele sabe que lá tem o remédio de que precisa, e com 15% de desconto. O filho é que não sabe isso.

Na farmácia, a atendente busca o remédio na prateleira, vasculha um livreto de preços, pega o dinheiro, dá o troco, tudo certinho. O menino volta contente para casa, certo de que cumprira a missão ao agrado do pai. Enganou-se o coitado! O pai verifica o troco, vê o preço e estrila:

– Não deram o desconto! Mas são uns filhos da mãe…

Telefona para a farmácia.

– Por favor, vocês tem aí o remédio tal? Sim? A que preço?

– Vinte e três! Mas damos um desconto de 15% na compra à vista.

– E por que não deram esse desconto para meu filho que acabou de comprar aí esse remédio?

Um silêncio curtinho do outro lado da linha como que pensando no que dizer.

– Alô! Por que não deram o desconto?

– Meu senhor, decerto ele não pediu o desconto!

– É! Mas eu também não pedi agora e você está oferecendo. Por telefone não precisa pedir desconto? E onde é que está escrito que precisa pedir um desconto que está sendo oferecido em todos os jornais?

Instantes depois, o pai reúne a família e proíbe terminantemente que qualquer membro de sua turma volte a pisar na tal farmácia. Certamente que faz isso, não pelos míseros reais que o desconto representava na compra do remédio, mas pela cara-de-pau de quem quer tirar vantagem em tudo. Até encima de uma criança.