Mensalão

0
115

Não costumo escrever crônicas opinativas. Raramente o faço. Muito menos se o tema é política, já que esse terreno, no Brasil, é muito resvaladio: escorrega-se facilmente. Mas não me aguento mais para meter o bedelho, como diz a expressão portuguesa, no Julgamento do Mensalão e consequentes respingos em autoridades próximas.

Neste momento, ou nesta data, já todos os condenados estão com suas penas estabelecidas e as cadeias formatadas para receber proeminências antigas do governo ou desgovernos já passados, mas não mortos. Há quem ainda não acredite que os condenados pelo Mensalão vão mesmo para a prisão. Eu também não acredito muito, já que ouvi, ou li, que a Venezuela está aberta para receber muitos dos condenados como “asilados políticos”, já que esses se movem no sentido de recorrer das sentenças nosso Supremo Tribunal Federal em tribunal internacional com a alegação de que foi um julgamento político, e não um processo que condenou uma chusma por roubo, entre outras cracas. Sim, foi uma perseguição política, e isso dá direito a asilo. Era só o que me faltava!

Pois pode! Nesse Brasil pode tudo, em se tratando de livrar “cumpanheiros”. Mesmo com o julgamento do Mensalão ocorrido quase que ali na sala de cada um dos milhões de lares brasileiros, através da telinha, ainda há quem afirme que é tudo invenção dos adversários políticos, que é uma bobagem, que o Mensalão nem existiu.

Ora, se esse posicionamento é de alguém que está aqui no nosso lado, de alguém que não acompanha nada além das novelas e dos resultados do futebol, é perdoável. Se essas opiniões vêm de um político que só acredita em fadas e lobisomens militantes, também é perdoável. Mas quando se lê que um ex-presidente da República responde a jornalistas internacionais que “o Mensalão é uma invenção de seus adversários políticos”, a coisa muda de jeito.

Foi o que Lula disse para um repórter do “New York Times”, em entrevista que deu para aquele jornal, não faz muito. Não que seja novidade, porque é o que Lula vinha dizendo isso há muito tempo. Mas, agora, ele falou quando o julgamento estava em pleno andamento. Quando milhões de brasileiros já se habituavam com o juiz relator do processo, Joaquim Barbosa, e seu senta-levanta-senta. Quando outros milhões de brasileiros ficavam apreensivos com as encrencas do relator com o revisor Lewandovsky. Quando outros milhões começavam a acreditar na justiça e, vejam, somente o Lula, com o poder que tem sua palavra, com a importância que tem qualquer resposta sua para qualquer entrevista, somente ele ainda afirmava que era tudo invenção de seus adversários políticos. É mesmo de cair os butiás do bolso!

Será que um ex-presidente de um país como o nosso não deve ter compromisso com a verdade? Sim, porque o que ele disse ao “New York Times” é mentira. Sim, mentira, uma mentira, convenhamos, que não engana quem está, no mínimo, antenado nos noticiários mais acessíveis e populares. Mas, assim mesmo, a palavra do ex-presidente, simplesmente por ser Lula, vai desligar a verdade da mente de muitos milhões de brasileiros fissurados no que ele diz, como o são certos fieis de certas seitas “xiitas” em relação ao seu mestre. A palavra de Lula, em relação a milhões de brasileiros mal informados é mais ou menos como aquele adágio latino que define a verdade absoluta e irretorquível: Roma locuta, causa finita est! Que dá para traduzir, nesse caso, assim: Lula falou, tá falado! O mensalão nunca existiu!

De todo esse discurso, dá para inferir que Lula não é dado a respeitar valores que devem ser primordiais numa sociedade democrática, já que negar a existência do Mensalão é negar o trabalho do STF e suas funções constitucionais. É não dar importância à Constituição. Assim, talvez, esteja certo aquele que diz que, para Lula, “não há valores: vale o que o levar ao poder ou o mantiver nele”. Se assim é, salve-se quem puder!