Meu rio Ijuí-im

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Agora, quando sento à beira do rio e o vejo ainda partindo na mesma direção, a mesma suavidade das águas, a mesma curva lá embaixo dando adeus, não tenho a mesma paz de antes. Não sei, mas parece que os reflexos do sol nas ondas me espiam e que as sombras nas barrancas ocultam vidas exigindo de mim alguma coisa que não sei o que é. Os sarandis balançam e eu fico atento, esperando que dali saltem outra vez os homens, dos quais o rio foi caminho e túmulo.

Eu conto. Conheci o rio no meio da juventude minha, não no seu leito de voltas e cachoeiras e poços de calmas profundidades. Nem o seu cheiro, nem a sua cor, nem o seu aconchego fresco para um corpo em brasa. Não! Conheci-o no papel da história e amei-o à distância, uma paixão platônica, misteriosa, quase doentia, posso revelar. Seu nome? Ijuí-im, eu gostava. Era vivo, e vivo corria no leito dos livros, me levando longe, muito além de meu tempo, atravessando matas, furando cerros de pedra, dando de beber aos campos, espraiando-se às vezes, às vezes se encolhendo em profundos silêncios, até entregar-se inteiro ao seio das águas maiores, sua tumba e glória ao mesmo tempo, perdendo sua identidade numa tristeza sem fim. Mas se morria meu Ijuí-im, ali nascia, também, sua história de brilhos e tragédias. E eu estava lá!
Não consigo precisar se vim junto ou se estava à sua margem. Sei que eles apareceram em canoas, três ou quatro em cada uma. Cantavam, e os pássaros, as capivaras e os tigres ergueram a cabeça, surpresos com melodias que aquelas paragens jamais haviam escutado.

Na confluência das águas, as canoas juntaram-se, e pareceu haver uma conferência entre elas. Eram índios. No meio deles, a sotaina negra de um padre, de pé, reunia os olhos de todos. Ele então ergueu o braço apontando para o meu rio. Logo, os fortes braços morenos impulsionaram as embarcações Ijuí-im acima. Eu nem imaginava, mas naquele momento abria-se a porta de um destino que mudaria tanta coisa e afundaria nas próprias águas do meu rio as maravilhas de sua trajetória. Era o fim da magia e o princípio de um novo mundo. A solidão milenar do Ijuí-im quebrava-se nos sulcos das canoas que escreveriam a narrativa das Missões. Pareceu-me naquele momento ver o rio chorar batendo diferente nas margens assustadas.

Pouco acima, não mais de horas de remo forte, os índios aportaram na margem direita. O padre pisou a terra virgem ao mesmo tempo em que fazia um enorme sinal da cruz. Quedou-se por instantes em recolhimento, parecia rezando. Depois, acompanhado de três ou quatro índios que portavam estranhos instrumentos desapareceram no denso da floresta. Seguiu-se um silêncio de expectativa dos índios, dos animais, das águas. Aquele silêncio doía!

Então, ao mesmo tempo em que o padre retornava, ouvia-se no coração da mata a primeira batida do férreo machado. E a mata começou a cair impiedosamente, furiosamente, dolorosamente. E mais índios, e mais ferros, e mais gritos impotentes das árvores. No terceiro dia, uma grande ferida deixava o sol castigar o chão que, abençoado pelo padre, tomava o nome de solo missioneiro. Bênção e maldição ao mesmo tempo, a clareira aberta chegou até o rio, desnudando as margens, fragilizando as barrancas, afogando o meu Ijuí-im.

Não sei como, de repente senti-me fraco, tão pequeno, pregado à terra e incapaz de reagir. Quando vi a pequena igreja erguida com os troncos decepados, e quando ajoelhei na frente do altar encimado por uma imagem do Anjo da Guarda, enchi-me de crucial dúvida. Se por um lado acabava o sonho de eterna virgindade do rio e da mata, por outro, o mistério da maravilhosa presença do homem e das divindades missioneiras implantavam um novo império.

Mas a que custo, Deus meu! Fora melhor que não tivessem vindo! A depredação nunca mais acabaria. Que tempo, meu rio! Teus banhos foram de sangue em corpos de morte até que se foram os padres e os índios. Ruíram os templos e as casas de pedra carcomida pelo abandono ante as forças de além-mar. Estas, por sua vez, sucumbiram sufocadas nas intrigas dos palácios. E os novos séculos da ganância humana seguiram os rastros dos índios, dos padres, dos exércitos, e pisaram com botas de aço que tanto despiram os santos de pau como arrasaram as barrancas do meu rio.

É por isso que, agora, quando sento à beira do Ijuí-im, sempre me invade esse sentimento ambíguo de culpa e de glória. Eu estava lá, no início de tudo, como a consciência que não soube decidir diante da encruzilhada dos séculos mirando o futuro: de um lado a natureza inviolada, de outro, a civilização que pedia espaço e rumos.

Só me resta aproveitar essas manhãs de primavera alta. Nelas, passeio pelas barrancas do meu rio catando guabirobas despencadas pelo urutau, à noite. Suas águas continuam partindo na mesma direção. Desço até elas, tomo-as nas mãos e elas me acariciam. Molho o rosto para que lavem e levem rastros de dor e de lágrimas. Sua solidão será menor, e menor será a minha eterna angústia.