Muito sucesso para você no 2013? Não.

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 Nos últimos dias do já ido 2013, como todo o mundo (quase), nossa equipe de trabalho também queria enviar um Cartão de Felicitações pelo Natal e Ano Novo que se aproximavam. Então me trouxeram um rascunho do que iria escrito no Cartão: lá estava aquele eterno, repetitivo, fraco, vazio, comum, neutro e insosso “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Decididamente, não gosto dessa forma de desejar que as coisas sejam melhores para alguém tanto no Natal como no ano que se inicia seis dias depois. Então pedi que eliminassem essas palavras do rascunho e colocasse ali outros termos mais reais, mais diretos, que pudessem surpreender a quem receberia o Cartão.

Mas o quê? O que seria incomum e ao mesmo tempo sincero, que pareceria sair do fundo do nosso coração? Falou-se muito e com muitas sugestões, a maioria terminando em risada (aliás, não sei por que o meu grupo de trabalho ri tanto). Jocosidade é o forte deles antes do “pega pra capar”.

No meio de tantas ideias, veio-me à cabeça que deveríamos colocar no Cartão de Felicitações a seguinte frase: Desejamos muita merda para ti e sua família neste Natal e durante todo o ano que se inicia.

Foi uma risada geral e não me levaram a sério. Então tentei explicar que nós todos, da criança ao mais velho ser humano, somos os atores de nossas vidas, quer sejam elas uma comédia, um drama, uma tragicomédia ou uma tragédia. Ou um simples esquete, para quem não consegue ir além disso em sua própria vida. Ou outra coisa inqualificável! E se somos atores que decidem o que representamos no mundo a cada dia, a cada ano, nossa vida é uma peça de teatro. E que peça, meus senhores!

Expliquei, então, que no teatro, a expressão “merda” é usada para desejar boa sorte ao ator, antes de entrar em cena. E que se em vez de falar “merda”, falar “boa sorte”, dá azar. E se o ator responder agradecendo com outra “merda pra ti também”, aí tudo vai dar errado em cena. Não pode dizer nada e partir resoluto para o palco. É uma forma carinhosa de desejar que tudo dê certo em cena. Vem do francês “merde”, falado com um forte acento no rrr. Ora, se assim acontece nos mais importantes teatros do mundo, deve dar certo também para a cena que iremos representar no próximo ano com o script de nossa vida. Uma analogia cheia de toques simbólicos para quem transita na área da cultura.

Fui mal! Acharam arrojado demais. Grandes riscos. Que nossa vida não é uma peça de teatro. Que poucos sabem francês e que ninguém vai ler “merda” como sendo “merde”, com aquela carga gutural no r. Que deixasse para o ano de 2015, quando a evolução intelectual e cultural de todo Brasil, após a Copa do Mundo, estaria, então, em nível de aceitar um “merda” com o carinho que traz em seu conteúdo histórico-cultural. E fim de papo! Voltaríamos ao comuníssimo Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Bueno, a maioria vence, mas não me convence!

Depois, o assunto passou para o engodo que subjaz nas festas de fim de ano, aquela história de que o ano acaba mas os problemas, não. Que há apenas um vago sentimento de que as coisas mudarão, que vão melhorar, que as bênçãos serão maiores assim como a prosperidade. Daí a aceitação do velho e batido “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Aí, alguém leu uma postagem que encontrou no Face sobre esse assunto. Assim, exatamente como estava escrito:

– “Porque existe ano novo se nada muda, tudo fica no mesmo lugar? todo final de ano e isso, roupa nova vinho praia etc…mais ninquem parou para pensar que nada muda, ano passa, ano vem e tudo continua a mesma coisa, politico roubando, mendingo na rua, salario baixo, falta de emprego. entao para que comemorar, a unica data que eu acho importante e o natal”.

Pelo amor das madrugadas! Por Deus e um patacão furado, esse cara merece mesmo um “merda” no sentido mais literal e brasileiro possível. Em quatro linhas aqui, conseguiu cometer dezesseis erros. Um dos presentes “falou e disse”:

– Pensando bem, esse cara está certo. Alguém não entendeu o que ele disse? Hein? Não importam os erros ortográficos ou não: o que importa é fazer-se entender. Falei e disse, mendingos do entendimento!