Não falei da tragédia de Santa Maria

0
103

Até esse momento eu não havia escrito nada sobre a comovente tragédia de Santa Maria que abalou a cidade como um terremoto em equação de morte, dor e estupefação. Sim, estupefação que ganhou o estado, o país, o mundo, e tingiu de luto tantos corações.

Fui a um dos velórios dos jovens santo-angelenses ceifados pela fumaça mortífera. Rezei por minutos diante do esquife fechado, sem convicção do que rezava. Não havia argumentos ali no meu coração que pudesse iluminar um pouco minha fé agastada pelos dolorosos fatos. Depois abracei o pai balbuciando algumas palavras que queriam ser de consolo. Mas ao abraçar a mãe do jovem ali ao lado, não achei nenhuma palavra para ela, e chorei um instante no gritante silêncio das dores que se juntavam.

De certa forma, todos morremos um pouco quando temos que afrontar um episódio tão cruel e tão próximo como esse. E morrem junto um pouco de nossas crenças, nossos julgamentos, nossas certezas, nossas razões, nossos objetivos e nossas esperanças. É no atropelo desses abalos que perdemos as palavras para explicar, para obter uma resposta, para racionalizar e até para consolar. Vazios imensos, nebulosidades, temores, descaminhos. A fé, talvez a fé, talvez a oração, não sei.

E nesse afã da mídia querer se antecipar a tudo, nessa busca de culpados, na azáfama de opiniões que se mesclam entre a pobreza de argumentos e o sentimento geral de perda de alguma coisa em comum, não sei por que razões deixo-me assaltar por uns versos de Gregório de Matos, tão antigos e tão atuais, e que falam da instabilidade das coisas do mundo:

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Essas perguntas ficam furando a cabeça depois da torturante tragédia de Santa Maria. São as mesmas perguntas que a humanidade repete a si mesma há milênios, e não obtém a resposta. No entanto, o tempo e a vida nascem juntos, ambos inexoráveis, o tempo em direção ao eterno, a vida em direção à morte. Quando nascemos, já estamos morrendo.

“Porém, se acaba o Sol, por que nasce”?

Mas esse poeta barroco foi um poeta triste, como triste e escuro é o Barroco. Se a “formosa luz não dura”, o tempo dura. E se nada mais restar que nos console, se as mãos postas em súplica divina também adia a dor que punge, o tempo é implacável. Então eu busco consolo nos Sermões de Vieira, o grande padre Antônio Vieira, outro barroco, que pregava assim sobre o tempo:

– Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Será que cura também os corações destroçados pela tragédia de Santa Maria?