Não me odeie por ser bonita

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Sei que não é um bom costume ficar ouvindo o que os outros dizem por aí, principalmente se é do outro lado da porta. Esse é um costume feio, de comadre fofoqueira, dos campeões do diz-quê. Falo de ficar ouvindo frases esparsas, essas que você ouve quando está passando por outras pessoas, pequenos grupos de mulheres, bolinhos de jovens em altos papos. Essas frases, normalmente, não fazem sentido se não forem colocadas no devido contexto. Mas elas têm um gostinho muito especial, exatamente porque chegam aos nossos ouvidos fora do contexto em que são expressas. Por exemplo, essa que ouvi numa noite qualquer, num dos passeios da universidade local. Eram jovens alunas, das que falam alto e não se importam com os ouvidos dos outros:

– … e eu disse para ele que a boca era o limite!

Anotei a frase num canto do computador para não esquecê-la, e dei rédeas à imaginação para colocar essa frase num contexto. É brilhante! Por isso, tente o leitor fazer o mesmo: tome a frase e imagine em que contexto poderia ser produzido.

Vai que, dia desses, ouvi uma outra frase que me encucou. Não foi frase dessas apanhadas no ar. Foi resultado de uma pequena discussão entre duas moçoilas, onde o narcisismo e a petulância cavalgavam as duas. Uma, mais do que a outra, dada a pavonear-se exageradamente. Tivessem cauda além dos opulentos bumbuns, tudo estaria justificado. A frase foi a seguinte:

– … não precisa me odiar só porque sou bonita.

No ato, cheguei a olhar para a autora de tão portentoso conceito sobre si mesma, mas o local e a hora não mo permitiram nenhuma constatação, mesmo porque caberia um exame mais detalhado e, quiçá, comparativo com grandes beldades que transitam pela mídia internacional. Assim, quem sabe que grande oportunidade perdi de conhecer a mulher mais linda do mundo, ali, a um passo de meu caminho em direção à sala de aula.

No entanto, o que essa mocinha dizia para a outra, não estava fora de contexto nenhum. Pensando melhor, depois, com meus casacos de inverno, creio até que ela tinha razão em achar que alguém poderia odiá-la só porque é bonita. Nesses tempos de tantos recursos para mexer com a cara que se tem, desde uma leve engrossadinha nos beiços até o soerguimento daquilo que já foram os seios, passando por olhos, nariz, orelhas, bochechas, pescoço, gogó, cabelo, sem tocar em assuntos que lembrem rugas, manchas, buços, dentes, quadris, bumbum, dedos, etc., etc., e tal e tal. Hoje, a fábrica de horrores está aberta, e tem a mesma entrada para os Franksteins da vida como para as Giseles Bündchens.

Essa moça, a autora da frase, com certeza tem seu problema resolvido, em relação a milhões de mulheres infelizes porque não teriam nem coragem de pronunciar metade da frase sem se pôr aos berros e cair em lágrimas. É mesmo um sonho impossível para quase todas as moçoilas alcançar o padrão de beleza atual, imposto pela moda, pelo dinheiro, pelos interesses esconsos da grande mídia. É muito mais fácil de serem encontradas as meninas com aversão ao espelho do que as que se amam de paixão diante de suas fachadas.

Pois a nossa ignota autora da frase em pauta deve ser uma entre os miseráveis 0,5% da população feminina que pode se enquadrar nos limites do padrão de beleza atual. E se ela não estava dizendo aquilo apenas para despertar a ira da sua amiga brigona, ou dizendo de puro despeito, ela achou o jeito de ser amiga de si mesma, aceitando-se bem como o espelho a retrata e selando a paz interna a que todas as mulheres deveriam almejar em relação à beleza física.

Por outro lado, dir-me-ão os céticos que a frase não passava de uma petulância e que tinha um endereço certo e fatal: chamar a outra menina de feia. Se a odiava porque era bonita, além de se sentir feia, era invejosa. Ora, ora, meus caros céticos de plantão, nunca duvideis da palavra de uma mulher quando se trata da própria beleza. Ser bonita carrega uma carga emocional tão poderosa que seria arriscado demais duvidar. Mundos poderiam vir abaixo, ou melhor, em cima de vocês!