Não sou um vereador fútil

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A Câmara de Vereadores, que existe para ser o Poder Legislativo de uma cidade, no Brasil, como no resto do mundo, pode mudar de nome mas não muda de função e de barbaridades. Não vou divagar aqui sobre o número de vereadores, sobre o que ganham para legislar, sobre o que fazem para o povo, já que, na teoria, o povo é o patrão do vereador. E, em se tratando da Câmara de Vereadores de Santo Ângelo, parece-me que é uma instituição que exerce suas funções sem maiores problemas, dentro do que se espera de uma Câmara. Nem me ocorre de que tenha havido “barbaridades” que mereçam e registro como tais. Ou não?

Falo de Projetos de Leis que, ou se transformaram eu leis, ou morreram no gabinete do prefeito, ou morreram precocemente atacados pela burrice e pela inaplicabilidade. Vejamos alguns exemplos recentes:

– “Instituição do Dia da Família Mineira, em São Paulo. Objetivo é reunir anualmente famílias mineiras para eventos na área cultural. É de autoria do vereador Agnaldo Timóteo”. E as outras Famílias de estados diferentes não seriam discriminadas?

– “Estabelecimento do Dia do Orgulho Heterossexual. Segundo palavras do autor, um vereador de São Paulo, o projeto acaba sendo uma referência contra os gays, que estão exagerando nas comemorações. O problema do gay não é ser gay, mas é querer se declarar homossexual a todo instante, desrespeitando normas e condutas.” Não sei como esse não foi para a cadeia.

– “Em 2004, vereadores de São Paulo instituíram o uso de coletes com airbag para os motoboys. Em novembro, a proposta foi aprovada em votação na Câmara, mas tinha pouca chance de ser sancionada pela prefeitura e virar lei”. Faltava tecnologia.

– “Em 1999, em Juiz de Fora, os vereadores tentaram passar uma lei que obrigasse os cavalos e burros usar fraldões para não sujar as ruas”. Ainda bem que não deu certo. Imagine-se o mico.

Há muitas dessas tentativas de se transformar em lei coisas absurdas, como a de proibir o uso de camisinhas e anticoncepcionais, com a justificativa de que o município estava perdendo os índices de impostos em virtude de que a sua população decrescia. Ou, então, a construção de um “discoporto”, um aeroporto para discos voadores. Ou, ainda, uma lei em que a pena aumenta para crimes aos “domingos ou feriados”.

Mas nada dá para comparar com um cara-de-pau da cidade de Vila Velha, ES. O vereador se chama Ozias Zizi, do PRB. Li a barbaridade na revista Veja. Ele quer proibir as noivas de sua cidade de casarem sem calcinhas, na igreja. É o fim da picada!

Ele diz que há mulheres que acreditam que, casando sem calcinha, o casamento será mais duradouro. E que contra isso não tem nada, mas que entrar na igreja sem essa roupa íntima, não poderá ser. A igreja é um lugar sagrado e não pode ser violado com uma noiva nua por baixo do vestido.

O interessante é que o vereador tomou por base um fato que apareceu na internet, que mostra um padre de Alagoas se negando a realizar um casamento porque a noiva estava sem calcinha. Mas que padre sem vergonha! Como é que ele soube da nudez da moça? Examinou-a, antes, na sacristia? A noiva teria confessado o seu propósito? E, por último, dá para acreditar nesse tipo de notícia largada na internet?
Perguntado se não tinha medo do ridículo a que se estava expondo (e já se expôs), o vereador Ozias Zizi respondeu que ele não era um vereador “fútil”. Que tinha um lastro de leis de sua autoria que beneficiava o povo, e que o povo era seu patrão, ele decidiria se a lei proibindo as noivas de casarem sem calcinha era ridícula ou não.

Ora, ora, ou ele acha que o povo todo é muito idiota e aceitaria a lei como um benefício social, ou ele não tem mesmo um “desconfiador” na cabeça. Com tanta coisa com que se preocupar, vai logo atrás do uso ou não de calcinhas em noivas? Se isso não é uma barbaridade, o que é então?

Claro que esse não é exatamente um quadro fiel de nossas Câmaras Municipais. Mas mostra o descalabro a que estamos expostos quando elegemos candidatos despreparados para a função a que se destina. E não se trata só do Poder Legislativo: o mesmo acontece nos outros poderes quando os detentores dos mesmos não deviam estar ali, de jeito nenhum, seja por que meios ali chegaram.