Natal no Pátio

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Mal o dezembro se abriu na folhinha já amarelada da parede, ela viu as primeiras luzinhas nascendo nas janelas, portas, telhados, chaminés e árvores das casas e dos jardins do bairro vizinho. A menina mirava-as pela janela de vidro quebrado, a única da choupana miserável, e ficava imaginando mais sonhos que realidades.
– É a vida – suspirava, às vezes, imitando a mãe que, com essa frase, resignava-se sempre diante dos eternos e insolúveis problemas da casa, invariavelmente de fome e de miséria.
Para a menina, tempo de Natal era tempo de visitar o centro da cidade, seu único presente possível. O suficiente para lançar os grandes olhos negros pelas vitrines adentro, e de lá recolher imagens para seus sonhos de criança. Que vestido vestir? Não! Isso não lhe era uma questão difícil. Nem havia por que razões preocupar-se se apenas um vestidinho caía amassado de uma vara atravessada num canto do quarto comum. Com o vestido, outras peças dos irmãos menores, mais trapos que roupa, toalhas desbotadas, lençóis furados, cobertores e mofo. Precisava, sim, era estender o vestido no arame do pátio para tomar o ar do sol.
Alguns dias passaram de gostosa expectativa. Às noites cálidas, o pátio era um posto de observação das estrelas de Natal, milhares delas tomando a cidade nas fachadas dos edifícios, nas casas, nas lojas, nas torres, lá longe. Nem poderia mais adiar o passeio pelas ruas.
Numa tarde desse dezembro, o mundo fervia no calor de 39 graus. O rádio do vizinho anunciara, a menina atenta marcou sacudindo a blusa no peito. Quanto era mesmo 39 graus? Igual a febre do maninho que a mãe levara para o Posto? O maninho ficaria em casa, ela iria com o pai, era o dia de cruzar o centro para ver o Natal nas ruas.
E foi, e viu, e pela primeira vez sentiu-se a mais ínfima das criaturas. Tanta luz, tanta alegria na cara das outras meninas, tão lindos os vestidos, tão brilhante o cabelo… E aquelas fileiras enormes de bonecas, e caixas e caixas de presentes, e roupas tantas, sapatos, tênis que nunca teve, um mundo incrível de beleza sequer sonhada. Mas por que tudo aquilo lhe doía tanto?
Sentimentos novos no peito, incompreensíveis para ela. Nem nunca entenderia porque retornou tão quieta, atrás do pai. Nem nunca entenderia por que, na tarde seguinte, respondeu para a mãe que não iria varrer o pequeno pátio de terra, antes seu mundo e agora tão sujo.
Sentada à porta da casa, vassoura de carqueja nas mãos, alguma coisa nova se movia na alma da menina. O sobrecenho enrugado, a expressão séria e dura, a ausência de uma canção que sempre a acompanhava na tarefa de recolher as folhas de cinamomo que o vento esparramava no chão de terra, tudo dizia que a pequena menina tivera a revelação da realidade. Alguma coisa se lhe abrira no coração e sangrava por uma ferida invisível.
E ali ficou um tempo sem medida, quieta, tempo de angústia que a tenra idade não havia sentido ainda. Ouvia o rumor conhecido da cidade e, agora, esse mesmo rumor lhe tocava como uma agressão não experimentada. Tinha vontade de chorar, mas resistia sem saber por quê. Talvez a sensação de perda era a mais clara na mente confusa, mas apenas uma sensação, sem identificar o que perdera. Quem sabe, ela mesma ficara para trás… Mas por que ficara para trás?
Só despertou dessa letargia insólita quando a mãe, a última e única criatura que poderia compreendê-la nesse transe, tocou-lhe o rosto e falou:
É a vida, filha! Vai, varre o pátio que hoje é sábado.
A pequena ergueu-se e iniciou a tarefa. O rádio do vizinho espalhava na vila os sons melancólicos de uma música sertaneja.