Natal, uma festa complicada – 2

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 No Natal de 2004, escrevi uma crônica que tinha a pretensão de explicar por que essa festa universal traz consigo sentimentos que levam muitas pessoas ao psicólogo, quando não ao psiquiatra. Dizia que o psiquiatra Carlos Eduardo Carrion, em artigo, falava da “obrigação de estar feliz nessas datas, de gostar da sua família, ter capacidade de dar presentes, apreciar estar em festas. Se você não tem essas capacidades todas, fica com a sensação de ser um fracassado”.

Eu nunca havia pensado nisso, nessa “obrigação de estar feliz”, de gostar de toda a família que se reúne, de dar presentes a quem, talvez, jamais daria nada. Ah, se enveredarmos por esse lado, certamente que o Natal será uma festa complicada demais.

Falava também, naquela crônica, de uma certa “depressão natalina” que atinge principalmente os adultos. Falava da casa que, outrora cheia de filhos, é no Natal que os pais a sentem mais vazia, ensejando momentos de brutal saudade. Saudade dos filhos, dos netos, dos irmãos, do pai, da mãe, dos avós, dos dezembros de outrora. Saudade de ser criança outra vez, e ter presente a certeza de que nunca mais voltará à infância, e nem o Natal jamais será o mesmo.

Falava das crianças. Essas não se deprimem no Natal. Não? Talvez seja depressão aquela tristeza que se deita ao lado do menino, da menina, de todas as crianças que não terão os apregoados presentes que jorram da boca insaciável da TV, das vitrines, das goelas dos alto-falantes grudados em automóveis. Não terão e nunca tiveram presente algum, a não ser aqueles trastes velhos que são recolhidos dias antes pelas bondosas senhoras do bem. As gordas senhoras do bem!

Contava o fato que, aparentemente, seria simpático, se todo mundo estivesse feliz nessa data de atividades assoberbadas e correrias gerais. Uma senhora, após ter sido atendida pela gentileza da caixa de um banco, agradecia à mesma com votos de feliz Natal e bom Ano Novo, ao que a atendente respondeu “obrigado, igualmente para a senhora”. Então ela, a senhora, resolveu que os bons votos se estendessem aos familiares da moça, pai, mãe, “você tem mãe, você é casada, feliz Natal para sua família, obrigado minha senhora, mas passe adiante que vou atender o seguinte”, ao que a senhora cheia de votos bons para todo mundo resolveu ver quem era o seguinte, era eu, e me encheu de boas festas, “o senhor é daqui, não, sou de Santo Ângelo, para a senhora e para os seus também, eu já estou levando meu Papai Noel aqui”, e a boa senhora mostrava um maço de dinheiro, creio que um salário mínimo dobrado pelo décimo terceiro, “cuidado para que não te levem este Papai Noel”, ela voltou-se para a atendente, obrigatoriamente feliz por tudo aquilo, pediu um envelope, recebeu o mesmo, meteu o Papai Noel dentro e agradeceu outra vez com os mais sinceros votos, todo mundo na fila obrigatoriamente feliz. Havia gente atrás, e ranger de dentes também!

E agora, Natal de 2011, dentro de uma loja de brinquedos, dei com uma criança de três ou quatro anos, aos berros porque queria e queria um certo presente. Pelo visto, pai e mãe não concordavam e, talvez, nem estivesse dentro do orçamento deles. As crianças dessa idade costumam usar berros para convencer o papai e a mamãe. Uma cena que seria comum, se não fosse a reação desse pai. Descontrolado, deu um chute no traseiro do menino, jogando ao chão. Dali, juntou-o para o colo com um beliscão nas costas, retirando-se para a rua, agora com o menino aos gritos de dor, certamente. De retorno para casa, fiquei pensando que tipo de lembranças esse menino levará do Natal? Vai esquecer e só lembrar as luzes coloridas, os papais-noeis nas portas das lojas, as vitrines tentadoras, as pessoas felizes? 

Verdade é que aquela melancolia que se abate nos adultos no Natal e Ano Novo tem origem nas lembranças de fatos ocorridos nessas datas. Além de ocorrências tristes, são mais acentuadas lembranças de momentos realmente felizes, por incrível que pareça. Lembranças “de quem você era e não mais é, de pessoas que eram importantes e não estão mais ao seu lado, de eras que terminaram, do que fez, do que deixou de fazer”.

O importante, nessa hora, é saber que as datas de Natal e Ano Novo trazem consigo esses sentimentos. Que é assim mesmo e que não se pode dar margem para esse tipo de sentimento saudosista, que a realidade é essa, que o que foi, não podemos mudar, e que muitas coisas boas estão ao nosso alcance agora, neste Natal, neste Ano Novo.

E terminei aquela crônica de 2004 aconselhando assim: olha para o teu lado, abraça alguém que te acompanha sem dizer uma só palavra e brinda à vida que tens. Ela sempre foi, é e será o melhor Natal para ti. E se isso te não basta, por que não se agarrar no mais importante significado do Natal? Tu lembras qual é?

Um Feliz Natal para todos meus leitores. Que o Jesus Cristinho atenda à porta quando buscarem seu Pai.