Nheçu, o mito anunciado

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Nunca me interessei pela história dos Três Mártires Rio-grandenses, os padres Roque González, João de Castilho e Afonso Rodrigues. Tenho muito mais respeito pela santidade que lhes foi concedida pela Igreja do que pelo relato minucioso do martírio nos locais de Caaró e Assunção do Ijuí. Acredito na canonização mas tenho certa relutância em aceitar os fatos como são traduzidos nos livros que narram o sangrento episódio missioneiro. Mas não é dos mártires que pretendo falar nesta crônica. É do cacique Nheçu, apontado como mandante do triplo assassinato.

Na cidade de Roque Gonzales, institui-se um movimento que me chama a atenção pelo ideal a conquistar. Leva o nome de Movimento Nheçuano e desenvolve um encontro com o nome de Manifesto, Canto e Poesia Nheçuanos. E tem uma publicação com a denominação “O Nheçuano”, onde estampa uma espécie de epígrafe que denota as intenções do grupo:

– (…) Nheçu, líder indígena Guarani, defensor de seu povo, sua cultura e sua terra,pioneiro na resistência aos conquistadores no século XVII, na atual região das Missões, RS (…)

Em termos gerais, o grupo luta por uma revisão histórica da figura do cacique Nheçu, não a partir da visão dos conquistadores, que é a mais comum, mas das razões do guarani. Isso se depreende dos textos publicados no periódico Nheçuano e de algumas conversações que estabeleci com participantes dos encontros em Roque Gonzales.

Na verdade, ao meu ver,trata-se de um resgate difícil, mas não impossível. Difícil, porque o que temos ao alcance da mão para leituras são livros e publicações que narram a história de Roque González e seus companheiros mortos a partir de uma visão permeada de interesses, isto é, a visão do “conquistador”, que se pode traduzir aqui como a visão dos jesuítas à época. É dessa visão que nasceram termos pejorativos em relação a Nheçu, como diabo, demoníaco, maldito feiticeiro, falso deus, parricida, hipócrita, traidor, víbora peçonhenta, violento, traiçoeiro, vingativo, lascivo e bruxo. É essa imagem que nos passam os textos “oficiais” cuja leitura marca uma certa aversão a Nheçu, sem que lhe deem a palavra para sua defesa.

Pois a palavra em defesa de Nheçu está nascendo com o disfarce de resgate histórico de personagens, vislumbrando que deve haver um outro lado, o lado obscuro da história oficial, onde está um Nheçu coberto de razões para as mortes, em defesa de sua cultura, de seu jeito de ser, de seus costumes e de direitos sobre seus domínios territoriais, intransigente com os caminhos da conquista, contra os usurpadores estrangeiros. Enfim, um novo herói missioneiro, que se antecipa em 130 anos a outro herói, este muito mais mito que gente, Sepé Tiaraju, também erguido no pedestal da história por feitos contra os invasores, os mesmos a quem Nheçu combateu mais de século antes. E por se antecipar tanto a Sepé, Nheçu merece a chance de ser o novo eleito para ocupar seu espaço na galeria de heróis missioneiros como o “primeiro” de todos.

Eu disse ali acima que isso seria difícil, mas não impossível. Não bastasse o fato de que no imaginário popular já está fixada a ideia do mito mau, assassino de padres, ser diabólico, feiticeiro do mal, embusteiro, a Nheçu ainda pesa a escassa e fragmentada documentação histórica das verdadeiras razões que o levaram ao macabro desfecho em Caaró e em Assunção do Ijuí. Mas essa escassez de documentação também pesa contra os que querem transformá-lo de víbora traiçoeira em herói. Que sabemos mesmo de Nheçu? O que nos relata a literatura de fontes jesuíticas? O que nos relatam escritos romanceados das circunstâncias em que os fatos aconteceram? Seriam essas fontes e esses textos confiáveis para levar ao altar o demônio? Honestamente, tenho a impressão que o terreno em que pisamos nesta questão é muito resvaladiço e pode engolir muitas certezas apressadas.

Mas eu disse, também, que não é impossível fazer de Nheçu um novo herói missioneiro, maior que Sepé. Quem colocou a faixa de herói guarani-missioneiro-rio-grandense no peito de Sepé foi o mito que o cerca há mais de dois séculos. Tão forte o mito que já se propôs sua beatificação e, por consequência, a canonização. São Sepé, rogai por nós, sim senhores. Até há santinhos com orações especiais para a busca de milagres. E tudo assinado por um bispo da igreja católica. Ora, Nheçu terá que seguir o mesmo caminho, isto é, criar-lhe o mito ao longo dos anos, atopetar o imaginário popular através de lendas, invenções criativas, estórias fascinantes de cunho misterioso, poemas estóicos e épicos, e tudo que puder quebrar a porta de ferro e aço da visão dos ditos “conquistadores”. Mesmo assim, de olho na história que, de repente, pode desfazer nossas pretensões. Sempre afirmo que, nas Missões, o mito chegou muito antes que a história. Pois agora, no caso de Nheçu, terão que fazer o caminho inverso. Como querem com Sepé, seria mesmo possível pensar em beatificar Nheçu? Era só o que me faltava!