O espírito da coisa

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Algumas atitudes nas relações humanas são engraçadas. Há uma louvável confraternização quando nos encontramos com amigos de longa data. Abraços carinhosos, palavras de espanto e alegria, às vezes lágrimas. Principalmente no rosto das mulheres, essas adoráveis sensitivas.

No entanto, uma dessas demonstrações de carinho e amizade tanto pode ser manifestada num encontro festivo como num encontro triste, como um velório. A diferença estará nas palavras que serão ditas. Mas um pequeno gesto que sempre acontece nesses abraços tem chamado minha atenção, e que não sei explicar. É que, ao abraçar alguém, nossas mãos vão para as costas do abraçado, assim como as mãos dele vão para nossas costas. E lá nas costas, um do outro, uma das mãos começa a esfregar para cima e para baixo, como se ali tivesse uma coceirinha. Um coça as costas do outro com esfregadelas, enquanto vão dizendo as palavras para o momento.

Pois não sei por que cargas d’água eu sempre tenho que rir quando alguém que abraço começa a me esfregar as costas. Tendo eu lá minhas coceirinhas, até que gosto, e fico com vontade de dizer, mais para o lado, mais para cima, aí, aí!

Quem me lê vai dizer que estou redondamente enganado e que estou fazendo pouco de um gesto que é de puro carinho. Concordo. Mas garanto que essas esfregadelas nas costas é coisa de mulher. São elas as melhores esfregadoras de costas em abraços que já vi, sejam eles quais forem, e sejam os abraçados que forem. Mulher esfrega as costas de outras mulheres, de homens, de crianças, do que aparecer. Já o homem não esfrega costas de homem, a não ser por engano. Homem esfrega costas de mulheres, o que é perfeitamente cabível, salvo o fato de que a mão enrosque nas alças do sutiã, o que interfere na caça das coceiras. Homem com homem faz outra coisa: dá uns tapinhas, quase sempre desengonçados. Se o abraço for numa ocasião festiva, os tais tapinhas entre homens podem virar em tapões cujo eco pode ser ouvido lá na cozinha. Parece que quanto mais amigos, mais fortes os tapas nas costelas. No caso das mulheres, quanto mais amigas, mais esfregadelas que das costas podem se estender para os braços da amiga e, dali, para a cabeça, como que a ajeitar o cabelo.

De qualquer forma, o abraço, com ou sem esfregadelas ou tapinhas, deveria ser mais frequente entre as pessoas, quer amigos ou apenas conhecidos, ou até entre desconhecidos. É o que nos ensina Monica Buonfiglio. Ouvi-a dizer que são necessários quatro abraços por dia para se sobreviver; para manter-se saudável são precisos oito abraços por dia; já para progredir na vida, nada mais do que doze abraços por dia. Nada mau, tchê! Um abraço para todos meus leitores, então.