O livro e o fim do livro

0
117

 Estamos a mil com os preparativos para a próxima Feira do Livro de Santo Ângelo. Digo estamos porque o trabalho envolve as Secretarias Municipais de Educação, de Cultura, e, ainda, a 14ª Coordenadoria Regional de Educação. Todos voltados para um objetivo que é dos mais importantes para o crescimento do aluno, tanto como cidadão, como homem de conhecimentos os mais vários. Desde os primórdios do livro, ou mesmo antes do aparecimento do formato do livro como o conhecemos, em todos os lugares do planeta foi, e é, consenso de que a leitura é fundamental para o conhecimento humano, para o desenvolvimento das nações e para a formação das ciências.

Isso não mudou através dos séculos. Não mudou, mas pode estar mudando. Estamos lendo o mundo pela Internet. Estamos sabendo o mundo pela Internet. Estamos tentando ler os livros pela Internet. Que de horas são gastas pelos jovens de hoje na leitura via telinha, como os jovens do meu tempo de colégio gastávamos com os livros. Sim, talvez os jovens de hoje leiam mais que os jovens de outrora. O que difere é a tecnologia que eles têm em mãos. Eu dispunha da tecnologia criada por Gutenberg: o livro de papel. Os jovens atuais dispõem de uma tecnologia diferente que está em aparelhos como o celular, o tablet, os videogames e os notebooks. Que diferença! Eu tinha que ir e vir à Biblioteca, correr o dedo nos milhares de livros das prateleiras até decidir por um deles. Hoje, a Biblioteca está no bolso do jovem leitor.

Mas aí é que está o busílis: quem lê melhor, o jovem do e-book ou o jovem do tempo do epa? O livro estará, neste momento, definhando de verdade, talvez já morto? Se todo mundo se queixa que ninguém mais lê, que não se consegue fazer o jovem ler, que há formandos em universidades que nunca leram um só livro completo, que a Internet só serve para passar aos alunos partes dos livros de leitura obrigatória, que isso e que aquilo! Ou as novas tecnologias a serviço do livro não se prestam para a leitura, ou hoje a leitura perdeu o interesse como fórmula saudável para adquirir o conhecimento e proporcionar excelente lazer, ou a preguiça grassou geral.

Verdade que é um saco ler textos longos no computador. Nunca li nada longo num leitor chamado Kindle, onde o que aparece na tela tem o formato do livro, com página e tudo. Uma beleza para se ver. E nem sei se os meus leitores já experimentaram ler cinquenta ou sessenta páginas, numa sentada só, na tela de um monitor. Ainda acho melhor o livro que deixa a possibilidade de se molhar o dedo indicador na saliva para catar a próxima página. Um clique antiquado, mas eficiente, se não fossem os vírus e outras porcarias que o mundo moderno grudou nas páginas dos livros.

Os escritores preocupam-se com esse problema. É o que li do professor, doutor em Literatura Comparada, Marcelo Spalding. No artigo “A literatura para além do livro”, publicado no Caderno de Cultura da ZH, ele diz que ainda está por nascer “o artista que criará a obra-prima digital”. Ele quer dizer que o romance digital, o livro de contos digital, a poesia digital não será isso que está por aí na Internet. A literatura digital terá um formato próprio, ainda desconhecido e, provavelmente, dirigida para um público que ainda não nasceu. Uma literatura que poderá agregar outras artes como a música, a imagem, o sensorialismo ou seja lá o que a tecnologia digital ainda inventar. E o mestre Marcelo Spalding conclui assim:

– O certo é que a literatura digital é o gênero das próximas gerações, é ela que consolidará sua presença, elegerá seus precursores, definirá sua poética… Acreditamos que enquanto houver um poeta, uma língua e um leitor, haverá literatura. Seja na pedra, no papel, na tabuleta, no tablet, na terra, no espaço ou no ciberespaço.
É! O livro ainda não morreu e, pelo jeito, não morrerá tão cedo.