O olhar não obedece a regras gramaticais

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Há poucos dias, mulheres de Porto Alegre viraram notícia com a Marcha das Vadias. Dizem elas, as “vadias” (que não são vadias coisa alguma), que o objetivo é chamar a atenção para a liberdade de vestir-se como querem.

– “Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias”, disse a publicitária Maria Fernanda Geruntho Salaberry à ZH do dia 28 passado, segunda-feira. A Marcha das Vadias luta contra o preconceito masculino de que a exposição do corpo é um caminho aberto para o abuso contra a mulher e até o estupro. No mesmo jornal, a estudante Cecília Richter manifesta-se assim:

– Reivindico o direito de usar a roupa que eu quiser sem sofrer represálias nem abusos. Quero poder voltar para casa sozinha à noite sem correr o risco de ser violentada e escutar que fui eu que não tomou os devidos cuidados.

Nunca a mulher foi objeto do olhar como depois do liberou geral. É, “liberou geral” são os termos usados pela plateia masculina para referir-se à descoberta do corpo feminino, no sentido literal deste verbo, isto é, de descobrir-se.

Embora o inverno esteja aí pronto para emprestar panos para cobrir barrigas e umbigos incríveis, generosos decotes, costas e cofrinhos misteriosos, pernas, e quadris, ele não demonstra nenhuma vontade de encarangar o jogo da sedução que medra nos quartos, digo, quatro cantos da mulher. E o olhar continua liberto enquanto não caírem as primeiras geadas e os corpos não hibernarem, porém não definitivamente. Nessa permissividade aparentemente pacífica, olhar não é mais somente um verbo transitivo direto ou verbo intransitivo, onde o objeto e a ação estão definidos e não passam de seus limites epistemológicos.

Assim, hoje, olhar está mais para verbo transitivo indireto, aquele que necessita de uma preposição para estabelecer indiretamente um significado. Então, olhar passa a ser uma ação que só adquire significado com a ajuda de outros recursos como, por exemplo, da imaginação. O olhar vê uma coisa, mas avança de forma indireta mais pra lá, além de, para, entre, com, contra, de, desde, sob, sobre, et cetera e tal. O olhar não obedece a regras gramaticais. Em outras palavras, e sem frescura, o olhar liberto é a ponte do desejo, como o que ocorre com laranjas de amostra: bota-se-lhe o olho e a boca saliva.

Infelizmente, as coisas não são bem assim, ou tão assim. Dia desses, ouvi uma frase cujo conteúdo não pude consertar. Veio-me quebrado. Ouvi-a de voz que vinha da mesa ao lado, num café, enquanto eu desjejuava:

– Se olho, me chamam de tarado; se não olho, me chamam de bicha.

Na hora me deu vontade de olhar: era preferível ser chamado de tarado a ser pichado de bicha. Mas como eram somente rapazes, nem olhei e nem desolhei. Ouvi risos. Não sei por que riam diante de mais uma das manifestações da sempiterna ambiguidade feminina.

Visto o dilema do rapaz sob a luz da epistemologia e, junto, esse meu modo de explicar a questão, dois aspectos devem ser imediatamente aventados: primeiro, que as mulheres mostram, mas querem e não querem que vejam; segundo, que eu não tenho nada que meter a epistemologia no meio – que ninguém sabe bem o que é isso –, para dizer que elas querem e, ao mesmo tempo, não querem. Em última análise, está aí a velhíssima dúvida do homem, no caso, da mulher, do ser ou não ser. Tanto a mulher que mostra o que dá para mostrar, quanto o homem de todos os tempos, trilham a mesma angústia: ser o quê ou não ser o quê?

Nessa briga entre o é e o não é, há mistérios que estão por trás, e que acabam ferrando pessoas de bem como o rapaz da mesa ao lado. Todo mundo gosta de olhar, mas quando se é pego babando numa tatuagem que está a menos de um centímetro do alto do púbis, são corridos como tarados pelas donzelas descobertas. Mas quando passam e repassam bumbuns, barrigas, peitos, pernas e quadris, e ninguém taí pra eles, elas dizem “que droga”, “que bichaiada”.

Nesse singular vaivém da ambiguidade feminina, e aproveitando-se do domínio da vaidade, resta sobranceiro, impávido e luxuriento o olhar, aquele olhar de soslaio, de passagem, disfarçado, safadão.
– Mas isso é uma questão de gênero – dir-me-á meu confrade e poeta Girvani Seitel. – Vamos olhar por outro ângulo!
– Olhar?