O que faz o estudo!

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Meu sogro era um ferreiro intelectual. Lia muito. Comentava muito. Definia o que era e o que não era. Aconselhava e desaconselhava. E, entre outros afazeres da vida, benzia contra erisipela e cortava cobreiros. Era um espanto do mundo! E eu olhava, escutava e ficava dizendo entre minhas conclusões: o que faz o estudo!

Um exemplo de sua sabedoria muito antes da chegada da internet era uma história acontecida na barca que havia ao lado da ponte do rio Ijuí, ali na boca do Entre-Ijuís, há muitos anos. Um prócer de Santo Ângelo, numa charrete carregada de quinquilharias, e respectiva cavalgadura, queriam atravessar o rio com a barca, num dia de grande cheia. O barqueiro negou-se alegando perigo. O cidadão santo-angelense, fazendo uso de seus estudos na capital, teria dito assim para o barqueiro:

– Alto lá, ignóbil Creonte de meia pataca! Se não quiserdes atravessar a mim e aos meus deste hemisfério norte ao hemisfério sul, dar-lhe-ei uma birrada no alto de sua sinagoga e transformarei sua massa encefálica em estado cadavérico, com minha metafórica bengala.

Parece que o barqueiro achou melhor atravessar o prócer do que arriscar o emprego. E eu ouvi essa história tantas vezes que acabei decorando pela metade.

Agora, com a história de adiar a implementação do Acordo Ortográfico para o fim de 2015, e vendo que de nada adiantou os quatro anos anteriores para que todos os usuários da língua portuguesa o pusessem em prática, vejo que perdi meu tempo e muito blá-blá. Se é para complicar, as mudanças ortográficas não são nada em comparação com as possibilidades do uso da nossa língua padrão, semelhante àquela que o prócer santo-angelense praticou junto ao pobre barqueiro do rio Ijuí. Como disse, eu não consegui decorar o palavrório repetido por meu sogro ao longo do último século.

Também não consegui decorar até hoje certas versões de ditos populares encontrados em revistas de humor, elaborados em linguagem culta para uso popular, coisa que é como beber e dirigir: não dá certo. Assim, se alguém me disser que esse causo que transcrevi, contado pelo meu sogro, é “uma história pra boi dormir”, pode dizer que é “um colóquio sonolento para gado bovino repousar”. Fica mais elegante e não ofende. E não ofende porque não se entende!

Olhem outras situações onde você, meu caro leitor, pode usar a linguagem culta para dizer o que está realmente pensando, de forma educada e sem perigo de ofender.

– Se quiser mandar alguém “tirar o cavalinho da chuva”, sem magoar o interlocutor, diga assim: “pode retirar o filhote de equino da perturbação pluviométrica”.

– Se alguém quiser enganar você “dando uma de João sem braço”, mostre-lhe que é educado e diga-lhe: “estás querendo me aplicar a contravenção do João, deficiente físico de um dos membros superiores”? E se ele continuar “enchendo o saco”, avise-o que ele está “inflando o volume da sua bolsa escrotal”.

– No entanto, se você precisar “chutar o pau da barraca”, diga-lhe assim, que ele vai entender logo suas furiosas intenções: “queres que eu derrube, com a extremidade do membro inferior, o suporte sustentáculo de uma das unidades de acampamento?”

Há, ainda, a possibilidade de alguém insistir com argumentos quase convincentes a respeito de uma questão qualquer, da qual você nem quer ouvir falar. Então, em vez de dizer “nem que a vaca tussa”, diga ao seu insistente interlocutor assim: “não considero sequer a possibilidade da fêmea bovina expirar fortes contrações laringo-bucais”. Ele vai ficar pensando, pensando!

Vai que um dia esse seu mui amigo traga um presente, e você desconfia das intenções. Se você é coerente com a situação social de receber presentes, normalmente diria ou pensaria naquele ditado popular que diz “de cavalo dado, não se olham os dentes”! Mas lembre-se que você é um cara estudado e capaz de dizer a mesma coisa dessa forma: “de Bucéfalo de oferendas, não perquiris formação odôntica”! E leva o presente grego para casa sem constranger ninguém.

Por fim, há aquela história de que certos indivíduos costumam se aproveitar de pessoas estranhas ou até de amigos que, por particulares razões, excedem-se na bebida a ponto de perderem a compostura total. Para estas ocasiões, existe um dito que apresenta alguma inconveniência de mostrá-lo aqui, na sua versão popular, e que costuma justificar a judiaria que fazem com o pobre do bêbado caído por aí. Para esse momento, você poderia dizer assim, salvando a pátria do borracho: “esqueçam, amigos, esqueçam que o orifício circular corrugado, localizado na parte ínfero-lombar da região glútea de um indivíduo em alto grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade”. Se amigos entenderem, o cara estará a salvo de judiação, e ele lhe agradecerá depois. Até para isso serve o estudo.