O tempo passa

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Nada mais óbvio que a passagem do tempo. Nem precisa lembrar, pois que qualquer pessoa que se pensa bom da cabeça deve notar na própria pele que o tempo passa. A diferença está em como se relacionar com a passagem do tempo em nossa vidas. Desse relacionamento é que resultam alguns aspectos da personalidade de cada um, da cosmovisão que cada indivíduo tem em relação a sua existência.

Sabe-se que o comportamento dos homens resulta de uma série indefinida de relações, onde o meio é um deles, e fundamental. Mas não dá para negar que, dia mais ou dia menos, o homem terá que se definir por conta e risco, isto é, terá que ter uma opinião própria a respeito de suas crenças, de suas convicções, sem o que se perpetuará como um elemento que só acreditou no que lhe disseram, e não no que lhe disseram os outros e no que lhe disse a vida. Seguir caminhos e comportamentos porque os outros também seguem é simplesmente não se dar o direito de decidir sobre si mesmo. Como disse, dia mais ou dia menos, o homem, que é dono de seu próprio destino, terá que encontrar a paz dentro de si mesmo, onde não poderá haver lugar para a dúvida.

Para muitos, a vida ainda não é o bem maior que pode se conceder a uma criatura. E a vida humana, essa que é a nossa, é um bem muito maior do qualquer outro tipo de vida, pois que trazemos um espírito que é muito mais energia, a que chamamos de alma. Pelo menos nós, pelo que me é dado conhecer, assim a denominamos.
Mas o que é mesmo a vida, esse “bem maior” a que nos referimos? Na minha pobre tentativa de dissertar sobre esse tema, não entendo a vida como o fato de estar vivo ou estar morto. Não entendo que o respeito à vida se resuma em preservá-la da morte. Esse é um aspecto apenas da vida, embora seja um aspecto radical e indiscutível. Nele se inserem o cuidado com a saúde, com os perigos a que se expõe o dono da vida, o respeito com a vida dos outros.

O que entendemos por preservação da vida é muito mais amplo. Começa por aproveitá-la no seu dia a dia, estendendo seus limites mais amplamente possível, iniciando pelo prazer de viver. Será que pode haver coisa melhor do que estar vivo? Esse aspecto é aquele que derrama toda a luz para outros aspectos da vida, como as relações sociais, os envolvimentos íntimos, o trabalho, a perseguição dos sonhos, a realização pessoal. Antes de qualquer coisa, antes mesmo do dinheiro, da sabedoria, das posições sociais, da religião, do amor, da própria família está o prazer de estar vivo. Se conseguirmos entender isso, mas entender como visão de mundo, tudo o mais terá nosso carinho, respeito, amor multiplicado. Sim, porque saberemos que a medida de todas as coisas estará no prazer de passar um pouco de nossas vidas para tudo o que nos rodeia. Ora, se vida é energia pura, estaremos distribuindo nossa energia de forma prazerosa, gratuita, assim como Deus fez consigo mesmo. Afinal, somos ou não somos feitos à sua imagem e semelhança? E Deus não é a fonte inesgotável de toda a energia? É por isso que não entendo os suicidas. Eles nunca pensaram nessas coisas!

Por outro lado, existem homens que nunca se deram ao trabalho de meditar um pouco sobre si mesmos. Nunca se perguntaram por que existem, embora sofram muito com problemas existenciais. Sempre deram maior importância para outras coisas que o tempo lhes ia apresentando, como o dinheiro, o saber, o “status” social, o poder, a religião, a família, as paixões, enfim, a tudo o que o tempo se encarrega de nos apresentar ao longo da vida, sem se dar conta de que o existir, em si mesmo, devia estar em primeiro lugar. A esses homens está fadada a angústia de se perguntar, mais tarde, – “o que é que eu fiz que meu tempo está se indo e não percebi”? É como se, de repente, se dessem conta que construíram um castelo onde não podem habitar. O castelo é tudo que fizemos ao longo do tempo a nós destinado. Se nele nosso ser tiver menor espaço, dura será a percepção disso no dia em que se acordar e perceber que existe. E perceber que existe é bom que aconteça cedo, para que o prazer de viver se torne o mais amplo possível.

Por fim, somos os seres mais solitários que existem. A individualidade é uma característica do homem e, já ao nascer, temos saudade de alguma coisa que perdemos. Do quê? Do lugar que ocupávamos na Suprema energia que é Deus. Voltar para lá será uma questão de tempo. Daí que entender a vida como uma extensão divina só poderá nos alegrar. O prazer de viver é saber que somos parte de uma luz eterna. E viver é distribuir, sempre e para todos, essa luz, ao longo de nosso tempo.