Pesadelo na pizzaria

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Na coluna de Paulo Sant’Ana, na ZH do dia 16 deste mês, ele escreveu a respeito do atendimento no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. Refere-se a um estrago que teve no carro, há alguns anos, ao fazer uma manobra no estacionamento do Shopping. Reclamou da má sinalização, e teve seu carro totalmente recuperado pela empresa. Agora, ao querer tomar um sorvete num estabelecimento dentro do mesmo Shopping, e buscando informações sobre os preços, um funcionário o atendeu “mal-humorado, ríspido, áspero” e carrancudo.
Sant’Ana registrou a ocorrência junto a um segurança da empresa e, surpreso, horas depois recebeu um telefonema do proprietário da sorveteria colocando-se à disposição para reparar o dano. Também o setor de marketing do shopping telefonou dando-lhe atenção a respeito de sua denúncia.

Tudo isso apenas porque um funcionário lhe foi “ríspido, áspero, mal-humorado”. Claro que se tratava de Paulo Sant’Ana e não de um cliente qualquer. Será que “um cliente qualquer” receberia a mesma atenção que o colunista da ZH recebeu?

Deveria receber, sim. A diferença é que os “cliente qualquer” não reclamam, calam-se, engolem o trato ríspido e vão embora. Mas eu não fui. Ou fui, e só agora me animo a escrever o pesadelo que tivemos numa pizzaria de Santo Ângelo?

Pois digo. Éramos minha mulher, eu, minha filha e um neto de sete anos. Resolvêramos que a janta, naquela noite, seria uma bela pizza e num lugar que eu conhecia. Ali se servia, e talvez ainda servem, uma pizza muito dentro do que eu e minha família gostamos. Já provara diversas vezes e sempre saía com aquela sensação de que não encontraria, em outros restaurantes, pizza como a que comera. Entramos no lugar certo, mas… Que diabos havia naquela noite solto ali?

Pedimos a pizza, metade dela com o que se denomina quatro queijos, e a outra metade do tipo conhecido como portuguesa. Ainda, um guaraná para o neto que estava com sede e fome, disse ele para a garçonete ao perguntarmos o tempo para servir a pizza.

– De quinze a vinte minutos – respondeu a menina mais séria que criança molhada.

A espera de quinze a vinte minutos é razoável para uma noite com lotação total, que não era o caso naquele momento. Mas depois dos vinte minutos, com fome ou sem fome, o botão da espera pacienciosa é desligado e abrem-se as comportas da educação e do respeito para com os outros. Passados dos trinta minutos, a educação e o respeito dão lugar para a angústia e para o sentimento de que você é um otário à mercê da boa vontade dos garçons. Mas passados os quarenta minutos, você já não é mais um otário porque os que estão contigo à mesa têm a mesma sensação que você começa a sentir, a de que esqueceram do pedido nalgum lugar e a revolta predomina entre a confusão de sentimentos. Porém, aos quarenta e cinco minutos, ou você explode ou terá que cancelar o pedido.

Foi o que fizemos chamando a garçonete que, ao ouvir o cancelamento, sumiu por trás de mesas e balcões de resfriamento e, milagrosamente, voltou com a pizza quando todos já estávamos de pé para a retirada inglória.

Educadamente, voltamos à mesa e, com a certeza que tudo terminaria bem, iniciamos a distribuição dos pedaços. Mas alguma coisa havia naquela noite que não estava no nosso cardápio: a pizza estava fria. Fria de geladeira, fria de quem ficou sentado sobre alguma coisa gelada. Você já comeu a cebola fria que vem sobre uma pizza portuguesa? Como a taça da paciência já havia derramado para todos, nem chamamos a garçonete para reclamar. Levantamo-nos e, enquanto eu me entendia com a senhora do caixa, meus familiares foram embora sob os protestos do neto que não se conformava com tanta espera para nada.

Eu estava muito chateado com aquilo. Não somente pelo ocorrido, mas pelo sentimento de destruição de uma certeza, pelo desrespeito, pela falta de informações corretas, pelo desamparo a que expus a família, pela sensação de que ali era um lugar onde você é um número, o número da mesa, e não um cliente que veio porque gostava do lugar e sabia que ali era bom, muito bom.

Era bom, eu disse. E como não fiz denúncia para ninguém, como me calei, como apenas aceitei que não me cobrassem a pizza gelada e fui embora, certo de que ali não haveria mais lugar nem ambiente para mim, abri uma valeta para que outra vez isso se repita, outra vez uma família vai esperar quarenta e cinco minutos para receber uma pizza gelada das mãos de uma garçonete mais gelada ainda.