Por essa eu não esperava

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Eu estava sentado na poltrona 11. Ao meu lado, minha mulher. O ônibus tinha destino a Porto Alegre, horário matutino. Neste horário é difícil dormir, ainda mais por BRs onduladas, quando não esburacadas. Ganhamos, ainda na Rodoviária de Santo Ângelo, fones de ouvido que, diga-se, não serviram para nada. Saía deles um ronquinho de porco esguelado, nada mais. Lá na frente, um aparelho de televisão pouco maior que duas caixas de sapatos tentava mostrar um filme mais velho que o rascunho da Bíblia. Uma moça dormia na poltrona ao lado, encolhida como um feto e deixando aparecer no traseiro um cofrinho… deixa pra lá.

E fomos e fomos, eu li o Zero Hora todo, e me tranquei nos olhos fechados para buscar, se possível, um soninho, assim por acaso, de lambujem. Nada. Com os olhos fechados, são os ouvidos que enxergam. E fui captando os sons e vozes e conversas sem o fio da meada, coisa assim de não se entender, no início. Quase tudo sem interesse, mole-mole, desafinado de ideia concreta, perdido na fumaça fria do ar condicionado.

Então, de repente, não mais que de repente (vai Vinicius de Moraes), um telefone celular tocou. Pelo toque parecia o meu telefone de casa, fixo, com aquele barulho de campainha de missa, estridência que assusta no meio da madrugada. O som vinha de algum lugar atrás de nossas poltronas. Houve um instante de expectativa, aqueles segundos que se gasta para olhar na cara do telefone e ver quem é que está chamando. Daí para frente, depois de um “oooi” pra lá de suspeito, entre o carinhoso e o conhecido, teve início o que poderia ser classificado de horas de comédia patética e de final além de surpreendente. Nem sei se vou conseguir reproduzir tudo o que ouvi, mas não custa tentar, mesmo porque havia mais risadas que palavras. E como a gente só ouve um lado da moeda, fica tudo trincado.

– Já tomou café?

E aí já veio a primeira risada. Não uma risada que servisse para ser dada dentro de um ônibus lotado. Era uma risada de boteco cheirando, fumaça, linguiça e banheiro público. Mesmo assim, uma risada especial, pois usava quase todas as vogais como apoio sonoro. Uma coisa assim que começava com ahahahah e ia para eheheheh, para ihihihih.

Depois pude ouvir mais palavras.

– Dormiu bem?

Soou-me à intimidade essa frase, ainda mais que foi seguida de outra risada, longa e estridente, agora ocupando outras vogais e outras consoantes guturais, tipo egegegeg ogogogog igigigig, assim mesmo, tudo emendado, longo e perfurante. Era difícil de entender se a pessoa que estava dentro do celular falava alguma coisa, porque a risada se espichava cada vez mais, como se ela significasse alguma coisa muito maior que simples graça. Não era uma risada de amor, mas de bordel. De repente, me caíram os butiás do bolso.

– Tu não tem missa hoje?

Caracas! Estendi-me todo na poltrona para não perder mais nada do diálogo unilateral, mas outra vez a risada fonética dobrou-me à sua vontade sonora: éghréghréghr ighrighrighrighr ughrughrughr. Fiquei acossado com a possibilidade de descobrir quem estava do outro lado, tão capaz de só arrancar risadas entre guturais e palatais. Ainda mais quando ela perguntou se o tal não tinha missa, hoje. Quem tem missa diária é beato ou beata, muito religioso, freira ou padre. Padre?

Mas as risadas não paravam mais, sempre renovadas, reinventadas, usando todas as vogais e em todas suas diversidades sonoras, a é e ó o i u. Seria uma canção, não fosse o timbre de rabo-de-palha rouco que ela imprimia. E, percebi de repente, que não era só eu que andava querendo saber de onde saía aquela rouquenha e alegre risada contínua. Outros passageiros já antenavam suas cabeças para o lado de onde vinha a galinhagem. Minha mulher dormia, graças a Deus.

Então, quase tive um enfarto no gargalo de minhas suposições quando ela desligou o celular com um “outro pra ti, meu anjo”. Segundos depois, ela deve ter dito para alguém que estava ao seu lado, pessoa muito íntima, certamente:

– O padre fica louco quando saio.

E tudo sumiu, outra vez, na risada cinematográfica de comédia de terror.