Que coisa feia!

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Nunca tive vocação para a política, em nenhuma de suas acepções. Sim, porque o termo “política” tem diversas acepções e mais algumas vão se integrando ao rol de significados desta palavra tão pronunciada nesta simultaneidade de mensalões e eleições. O primeiro significado, e que deveria ser o único, ou pelo menos o mais aceito, seria o de “ciência de governar”, visto aqui da forma mais simples e compreensiva. Mas não é isso que acontece na mente das pessoas, hoje, quando essas ouvem a palavra “política” ou “político”.

Só para derramar aqui alguns termos que são mais entendidos como designativos de “política”, e provavelmente mais entendidos do que outros também derivativos do mesmo termo, esboço esse rascunho: – politicagem, politicalha, politicalhão, politicalheiro, politicão, politicaria, politicastro, politiqueiro, politicóide, politicômano, politiquete, politiquice, politiquilho. E nem de longe toco num termo que muita gente gostaria de ver aqui expresso como designativo de política que é corrupção, mentira, promessas nunca cumpridas, interesses pessoais, desonestidade e outros indicativos barra-pesada.

Talvez por estar tão agarrada ao conceito das gentes essa raiz distorcida do verdadeiro significado de “política” que, todo aquele que se atreve a botar os pés nela, na política, fica exposto ao veneno que dela emana. Azar, quer ser vereador, aceite assumir o emplastro grudento que todos aqueles termos aí acima tem para você, meu candidato. Ah, você não é assim? Não se enquadra nesse tipo de político tão comumente aceito? Então, veja só:

– Você vai visitar uma família inteira que o espera, pouco antes do meio-dia. Cumprimenta a todos dando a mão, sorri, baba pela beleza de uma criança no colo da mãe, faz um bilu-bilu, senta, toma um mate, fala um pouco do que quer fazer como vereador, ouve algumas reivindicações, anota para garantir que é sério, soma os votos que ali dará, são nove, uma boa, se o chefe da casa cumprir o que promete, isto é, convencer a parentalha toda. Você fica convencido de que foi uma excelente visita um pouco antes do meio-dia.

Então começa a se despedir de um por um, não sem dar um beijinho na criança bonita e, sem que se dê por conta, o chefe o acompanha até o portão que dá para a rua. Ali, ele, o chefe da família, tira do bolso uns papéis que, na cruzada do olho, você vê que são contas de luz, água, telefone, internet, além de um IPTU atrasado, o escambau.

Você chega a pegar o maço de contas pensando que o problema está resolvido, mas não é bem assim o ponto final. O chefe da família vem com uma conversa mole que são mais de trinta os votos que garantirá, que terá umas despesas para visitar os eleitores parentes, que isso tem algum custo, talvez uma galinhada reunindo a vizinhança, que poderá convidá-lo para uma fala e coisa e tal, que uns dois mil reais estariam bem para a empreitada toda.

Não sei o que você vai fazer, mas eu sei o que fiz: dobrei o maço de notas e meti no bolso da camisa do cara, porque até ali ele era o chefe da família, mas virou o cara de repente. Sim, porque foi exatamente assim que me aconteceu numa das duas loucuras em que me meteram amigos, convencendo-me a pleitear o cargo de vereador. Naquele exato momento em que devolvi as contas a pagar, devolvi a mim mesmo a dignidade, enterrando o pleito para sempre. Perdi as eleições, perdi um monte da amigos-da-onça, perdi mais um pedaço da fé nas pessoas e perdi para sempre a vontade de um dia exercer um cargo que envolva a “ciência de governar”, coisa que ainda não passa nos caminhos que conheço.

Não creio que essa historinha vá convencer alguém. Mesmo porque não é para convencer, mas para exemplificar. Tanto que, é certo, não há como generalizar a aplicação de todos os termos pejorativos a todos os políticos. Não, impossível! Há os que, por caráter, conduzem sua vida política da forma mais íntegra e respeitável. Também não são todos os eleitores que pensam em agregar ao seu voto valores não morais. Talvez esses são até a maioria, já que não há dinheiro que chegue para comprar todos os votos de todos. Mas aquele que ainda pensa em vender seu voto a quem der mais, esse é tão corrupto, tão sujo e tão traste quanto o candidato que compra, e pior que o mais desonesto político que nosso país ainda abriga nas saias da impunidade.