Sérgio “Jacaré” Metz e seu jeito de narrar

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Ontem, dentro da programação da Feira do Livro de Santo Ângelo, realizou-se uma Mesa Redonda em homenagem e resgate do escritor santo-angelense Luiz Sérgio Metz. Mais conhecido pelo apelido de “Jacaré”, ou simplesmente “Jaca”, em sua curta existência deixou uma obra literária que está, seguramente, entre as mais importantes já produzidas no Rio Grande do Sul. Nasceu em 1952 e nos deixou em 1996, pouco depois de ter lançado, em Santo Ângelo, seu último livro, Assim na Terra. Uma voz definida, uma opinião clara, um homem autêntico, uma busca infinita por respostas às mais intrigantes questões existenciais, sem sair de seu rincão. Aliás, a partir de seu rincão.

Neste final de setembro, quando entram em nossos céus e terras as cores da primavera, presto minha homenagem ao meu antigo aluno e amigo deixando aqui um dos capítulos finais de seu maior livro, Assim na Terra.

PRIMAVERA

Havia a loção Coty. Nas nossas cidades montávamos “Ranchos de Tradição” e era cordeona de manhã à noite, declamação e oratória. A “Semana do Vinte de Setembro”. Era uma retemperança. Pessoas em desuso reanimavam. Era uma cavalhada por sobre o nosso passeio. Esterco e loção Coty. A Pira da Pátria estava acesa. Uma dessas Semanas me pegou lendo “O Velho e o Mar”. Nos arrabaldes se churrasqueava gratuitamente. Vinho barato e cachaça. Nunca se caiu tanto de potro como nessas festas. Nomes de heróis reencarnavam e os patrões de CTGs sabiam um tanto de história. Eu me esforçava para ver os barcos sobre os campos que Garibaldi navegara. Nada era muito preciso, o peixe grande estava no fundo do mar, na linha de Santiago. Nos nossos colégios as coisas tinham exatas cronologias. Morreu beltrano no cerro, assinaram tal coisa tal dia. No final de tudo, o que ficava era uma sensação de Coty e esterco, um moderando o outro. E um ar ridículo em nós, que dá mais mistério à felicidade. No fim da noite do dia vinte as datas voltavam a se reencontrar. Havíamos comemorado a cepa farroupilha. Um longo aceno para trás nos colocava um pouco no futuro. Um homem fazia sentar seu cavalo sobre o sereno do asfalto. As festas, então, acabavam. Os índios trocavam de roupa. Os gaúchos enrolavam suas pilchas. Éramos apenas brancos, negros e índios novamente. Santiago passou a noite dormindo sobre jornais. No sul pesquei à margem de um rio, e dava bem para lê-lo. Um texto claro, prateado, também dourado. Nas manhãs sua fumaça lembrava um lenço de seda na copa inquieta das árvores. As flores nelas, na rede da névoa, eram névoa colorida, e tinham um olhar que mesmo a seda mais pura permite transparecer.